- Explique
porquê, menina Isabela – pediu calmamente.
Durante alguns
segundos olhei para as minhas pernas, pensando em tudo o que evitara desde a
minha vida em Portugal.
As inflamações.
A tosse
persistente pouco antes de adormecer.
As hemorragias…
- Há pouco mais
de seis meses tenho vindo a reparar nalguns indícios de possivelmente ter vindo
a criar um tumor na mama.
Zayn parecia
estático ao meu lado. Reparei pelo canto do olho que a sua perna tremia e por
consequente era a única parte do seu corpo que se mexia.
- Está a viver
em Lambeth há quanto tempo?
- Faz três meses
agora em novembro.
- Hum…
Estendi
discretamente a minha mão esquerda para o vazio entre as pernas de Zayn e ele
observou-a durante dois segundos. Entrelaçou os dedos lentamente nos meus e
fixou-me.
- Alguma parente
sua de gerações anteriores teve cancro da mama? – Perguntou de repente,
fazendo-me levantar a cabeça.
- Ahm, não. Que
eu saiba não.
O médico
assentiu mais uma vez, enquanto anotava todas as informações. Depois olhou para
a mesa, à procura de algo. Zayn e eu esperávamos, em silêncio.
- Bom, menina
Isabela sente-se na maca.
Zayn inclinou a
cabeça na direção da maca, enquanto eu me sentava, apreensiva. O médico – que
por sinal se chama Peter – arrastou a cadeira para a minha frente e sentou-se
nela.
- Levante a
camisa e o soutien – ordenou.
Zayn endireitou
as costas de repente e eu senti-me alarmada. Ninguém podia ver o meu peito.
Cruzei os
braços, trincando o lábio. Pousava os olhos em diversos pontos da bata branca
do doutor Peter, esperando que ele dissesse que não seria preciso analisar-me o
peito.
- Isabela, terei
que analisar o seu peito para conseguir saber se tem cancro ou não – advertiu,
como se me tivesse lido os pensamentos.
Quis olhar para
Zayn; quis olhar para ele e perceber pela sua expressão do rosto que não havia
problemas em expor o peito a outro alguém, a outro alguém especializado em
medicina. Mas não tive coragem de despregar o olhar da identificação do médico,
matutando profundamente no assunto.
Calma Bella, isto não pode durar para sempre, disse a minha vozinha interior solidária.
Não faria mal
nenhum explicar o estado dos meus seios. O que acontecera tinha acabado. De
vez.
Respirei fundo e
olhei para os olhos do doutor Peter. Levantei a minha camisola cinzenta e o
soutien preto, à medida que explicava o que me acontecera na infância. Achei
desnecessário contar pormenores acerca da história sucinta. O médico começara
por me apalpar a zona das axilas e a parte superior do tronco, à procura de
algum nódulo ou alguma alteração visível na pele – mesmo após eu dizer que
tinha sentido o caroço no seio esquerdo. No momento em que eu explicava as protuberâncias
que eu sentira no seio esquerdo, há seis meses atrás, ele apalpou-me no sítio
exato onde eu sentia o caroço.
- Ai! – proferi
involuntariamente.
O doutor Peter
estacou na cadeira e olhou para mim. Depois voltou a apalpar o seio na mesma
zona e eu voltei a queixar-me.
Olhei, pelo
canto do olho, para Zayn que cerrara os dentes com força. Aquilo incomodava-o.
- Quero que a
menina faça uma mamografia ainda hoje. – Pediu o médico, afastando-se.
Baixei a
camisola e levantei-me para me voltar a sentar na cadeira, ao lado de Zayn. Ele
apressou-se a agarrar-me na mão e a chegar-se mais para o meu lado. Não evitei
expressar um pequeno sorriso.
- Há três
hipóteses, menina Isabela – disse-me o doutor, olhando seriamente para mim. –
Ou tem um tumor benigno ou um quisto, que não trazem quaisquer riscos malignos,
ou então, tem realmente um cancro na mama.
O meu lábio
inferior tremia, e eu sabia porquê.
- A menina é
muito nova, e não é comum jovens mulheres como você desenvolverem um cancro. No
entanto, eu próprio vi o estado dos seus seios e posso garantir que as
queimaduras deverão ser a causa para o pressuposto cancro.
Talvez eu apenas
tivesse um tumor ou um quisto. Nada que não fosse tão grave quanto eu pensava.
- Quando sai o
resultado da mamografia? – Perguntei, distraindo-me da ansiedade que se
começava a criar no meu peito.
- Entre cinco a
oito dias.
- Não se pode
saber em menos tempo? – Zayn falou pela primeira vez, numa voz grave, rouca e,
no entanto, serena.
O médico Peter
juntou as mãos e virou-se para ele.
- Em alguns
casos urgentes poderá vir a saber-se em pouco mais de dois ou três dias.
- E isto não é
um caso urgente?
O consultório
ficou silencioso por alguns momentos, deixando-me também a mim a pensar se o
meu caso era urgente de se saber se ganhara cancro da mama.
- Você mesmo
disse que não é comum na idade dela se desenvolver um cancro da mama – Zayn
continuou a atacar. – A meu ver, quanto mais rápido se souber, melhor.
O doutor Peter
assentiu, pouco depois. Fez mais algumas anotações e acompanhou-nos, a mim e a
Zayn, até à receção. A senhora por detrás do balcão era ruiva e, decerto,
quarentona.
- Stella, marca
uma mamografia urgente para a senhora Isabela. Ela que seja atendida o quanto
antes e certifica-te que os resultados serão os primeiros a sair.

Fogo, agora a fic está-me a deixar nervosa! :P Mais :)
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