Acordei num quarto semelhante ao mesmo que era o meu na altura da
cirurgia. Sentia-me calma e confortável. Tinha duas almofadas brancas onde
repousava a cabeça e cheirava-me a lixívia. Não era muito agradável e o meu
nariz arrepiou-se. Pisquei algumas vezes os olhos enquanto observava o quarto.
Suspirei.
Mais uma voltinha na montanha-russa
do Sr. Thomas...
Esforcei o meu corpo a erguer-se de maneira a que pudesse ficar
sentada sem ter dores nas costas. Avistei o botão de chamada junto à cama e
pressionei durante um segundo.
Em pouco tempo uma enfermeira que eu não conhecia abriu a porta do
quarto após bater duas vezes.
- Boa tarde, miss –
cumprimentou ela com um sorriso sincero. O seu cabelo claramente era pintado de
um louro escuro.
- Boa tarde.
- Como se está a sentir?
Coloquei uma mancha de cabelo atrás da orelha enquanto falava.
- Bastante normal. O Dr. Peter sabe que estou aqui?
Ela sorriu de novo enquanto verificava alguns dados na máquina do meu
lado direito da cama. Estava a soro, algo a que já estava familiarizada.
- Sim, miss, logo que deu
entrada o doutor foi logo chamado.
- Hum.
Comecei a pensar em Zayn e nos rapazes. Lembro-me de Marie olhar para
mim em choque profundo. Levei a mão ao rosto, procurando indícios de sangue
seco. A enfermeira desconhecida reparou.
- Eu limpei-lhe o rosto, miss.
Se alguém a visse coberta de sangue nas bochechas acharia que lhe tinham
batido.
Dei uma breve gargalhada. Olhei para o relógio de parede, que
indicava quase duas da tarde.
- Estive assim tanto tempo adormecida?
A enfermeira olhou para mim com uma expressão intrigante nos seus
olhos castanhos. Mas em dois segundos colocou outro sorriso na cara que
desapareceu com o olhar estranho.
- O doutor decidiu que talvez fosse melhor dormir durante umas horas.
Para prevenir qualquer stress.
Acenei com a cabeça.
Ela afastou-se de mim enquanto fazia mais alguns apontamentos no seu
caderno. Antes de voltar a falar, abriu um pouco as cortinas, fazendo entrar
mais luz no quarto.
- Que tal comeres qualquer coisa? O soro não tira a fome.
Logo percebi que estava esfomeada. Não comia nada desde de manhã e o
almoço tinha ficado sem efeito. Sorri à enfermeira, afirmando com um aceno.
- O meu nome é Julia.
- Eu sou Isabela Ferreira.
Sorri o máximo que pude.
Ela voltou a aproximar-se de mim e num gesto pouco convencional,
afagou-me a mão que estava ligada diretamente ao soro. Senti um formigueiro na
zona da agulha espetada.
- O que te apetece comer? – Perguntou.
As minhas sobrancelhas uniram-se quando franzi a testa. O meu
estômago revoltou-se perante o pensamento de comida.
- Tenho um desejo absurdo pelas pernas de frango do Nando’s.
Trinquei o lábio.
Julia riu em voz alta.
- Por enquanto não consigo arranjar isso, mas talvez daqui a pouco.
Posso trazer-te algo da cantina? Não é lá tão apetecível quanto o frango, mas
sempre tens a sobremesa.
Ela lançou-me um sorriso de orelha a orelha.
- Mousse de chocolate – confirmou. Aproximou-se um pouco mais,
baixando a voz como se alguém nos pudesse ouvir. – Trago-te duas taças, é
deliciosa.
Suspirei enquanto lhe retribuía o sorriso.
- Por mim tudo bem!
Despediu-se com algumas palavras e eu fiquei sozinha e em silêncio, à
espera. Observei o relógio durante a maior parte do tempo. Estava acordada há
quase vinte minutos e ainda não tinha falado com ninguém para além da
enfermeira Julia. Queria ver Zayn.
Queria avisar a minha mãe que estava bem. No entanto, suspeitava que
ela já estava a par da minha situação, por esta altura. Tinha a certeza que
tanto ela como qualquer um dos meus amigos tinha pensado o pior. Eram
dramáticos.
A enfermeira voltou antes de eu sequer me dar conta, puxando-me para
longe dos meus pensamentos.
- A minha mãe sabe que estou aqui?
Julia trazia uma bandeja cheia de comida. Colocou sobre o meu colo e
eu pude ver que trazia o prato principal, uma garrafa de água, um pão, uma
banana e as duas tigelas da mousse de chocolate.
- A tua mãe foi avisada e ela já está lá fora com o resto dos teus
amigos. – Confirmou.
Assenti e destapei o prato principal. Agarrei no garfo e comecei a
desfiar o peixe. Estava quase frio, o que indicava que tinha sido feito há
algum tempo. Já passava muito da hora habitual do almoço.
- Eles sabem que estou acordada?
Julia levou a mão à boca.
- Esqueci-me completamente de avisar o doutor. Ser-se despistada dá
nisto!
Sorri perante o constrangimento dela. Não era nada de grave e fiz
questão de lho dizer.
No entanto, Julia disse que demorava dois minutos e eu deixei-me
estar a devorar o meu almoço. Estava definitivamente esfomeada e a comida já me
parecia uma delícia. O pão era fresco e sabia-me bem com o molho do peixe.
Beberiquei um pouco de água para comer a banana. Depois ataquei a mousse de
chocolate e soube-me tão bem quanto me saberiam as pernas de frango do Nando’s.


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