Tinha passado meia hora. As três da tarde aproximavam-se e Julia
ainda não tinha regressado. Ela disse dois minutos.
Claro que com o meu timing
perfeito de combinar os meus pensamentos com o tempo, Julia entrou no quarto
seguida pelo Dr. Peter que me sorriu mal trocámos olhares.
- Boa tarde, Bella – cumprimentou e eu fiz-lhe um aceno. – Como
estás? Gostaste do almoço?
- Olá, Dr. Peter. Sim, estava muito bom. O que tem para me dar?
Ele riu durante dois segundos perante a minha pergunta. Já estava tão
habituada às visitas ao hospital que me esquecia sempre da cordialidade
médico-paciente. Havia alturas que até perguntava pela sua mulher e mandava-lhe
cumprimentos. Ela fazia o mesmo e, apesar de nunca a ter conhecido, sempre
tinha mandado flores durante os primeiros meses de experimentação da
radioterapia.
- Os teus níveis do sangue estão normais, à exceção da falta de
ferro. Vou mandar a tua mãe e o teu irmão obrigarem-te a comer uma banana de
dois em dois dias e mais alguns frutos secos. Vais também passar a comer mais
peixe.
Suspirei, olhando para Julia. Ela piscou-me o olho e eu soube que
podia ter comido as pernas de frango – já que existia um restaurante da cadeia
a pouco mais de quinze minutos daqui.
- De resto está tudo bem. O desmaio foi devido ao stress de toda a
confusão a que estavam expostos.
Olhei para o Dr. Peter durante uns momentos enquanto refletia.
Troquei de olhares com a enfermeira Julia e de alguma forma eu soube que algo
se passava.
- Não me está a contar tudo. – murmurei.
O quarto ficou em silêncio e eu, definitivamente e com todas as
minhas certezas, sabia que algo se passava. Afastei o tabuleiro de mim e
endireitei-me na cama.
- Dr. Peter pode dizer-me o que realmente se passa. – Insisti. Olhei
para Julia. – Enfermeira?
Ela suspirou piscando os olhos castanhos, brilhantes.
- Eu não sou enfermeira, Bella.
Arqueei uma sobrancelha, confusa. Talvez fosse uma estagiária que
estava posta em avaliação e os seus cuidados perante uma doente de cancro
determinavam a sua nota final do semestre. Mas Julia parecia-me já estar nos
seus trinta e poucos anos.
Ainda assim, perguntei.
- Está a ser avaliada? Tipo estudante?
Ela sorriu timidamente, lisonjeada.
- Não, miss, acabei a
universidade há alguns anos. A minha área é Obstetrícia.
Fiquei ainda mais confusa. E enjoada.
O meu estômago revoltou-se durante uns momentos e eu já conhecia a
sensação. Tapei a boca para evitar que um espetáculo acontecesse à frente dos
doutores. Julia rapidamente me deu um balde e eu vomitei. A sensação da agulha
no meu pulso intensificou-se quando apoei ambas as mãos no balde. Incitei mais
o meu rosto para baixo e o cheiro não me incomodou.
Respirei fundo ao erguer a cabeça.
O Dr. Peter observava-me e, em silêncio, passou-me um lenço de papel.
Agradeci num murmúrio e fiquei calada por uns momentos. Algo se passava. Eu
sabia que algo se passava. Eu sentia.
- Diga-me o que se passa, doutor – sussurrei.
Puxei o cabelo para trás da minha orelha e engoli em seco.
Julia sentou-se à beira da minha cama e eu ponderei sobre a sua
profissão durante uns momentos. Fiquei constrangida por não me lembrar do que
se tratava a Obstetrícia. Claramente era algo importante, senão eu não teria
sido tratada por ela durante aquela hora. Quem cuidava dos pacientes eram
sempre os enfermeiros. Confesso que estranhei quando não tinha sido Sierra – a
enfermeira que tratava sempre de mim – a entrar pelo quarto dentro.
Abanei a cabeça.
- Doutor, é algo grave? – Engoli em seco. – O cancro alastrou-se?
Fiz figas.
- Não, Bella. O cancro está controlado, por enquanto.
- Então o que se passa?
Eles entreolharam-se de novo, pela milésima vez e Peter falou.
- Fizemos todos os exames necessários para saber a situação em que a
tua saúde se encontra. Pensei em fazer uma TAC também, mas como não havia
indícios de convulsões achámos que seria desnecessário.
Um sentimento de desinteresse perante a minha pessoa passou-me
fugazmente pela mente.
- Tens tido enjoos? – Perguntou Julia.
- De vez em quando. Estou muito sensível aos cheiros.
- E nunca te interessaste por saber do que se tratava? – A sua voz
era gentil.
Encolhi os ombros.
No último mês realmente eu tinha tido meia dúzia de enjoos, mas nada
grave, nada de especial. Apenas me surgia quando havia cheiros intensos e
fortes na casa. Além disso, devia ser compreensível, já que eu andava a comer
pouco.
- Tens tido problemas em urinar? – Perguntou Dr. Peter.
A pergunta apanhou-me desprevenida e eu corei.
- Não que eu saiba – gaguejei. – Tenho ido com alguma frequência, mas
isso é bom. Certo?
Julia mexeu-se, totalmente desconfortável no lugar onde estava. Os
seus olhos voltaram a pousar-se em mim, após fugazmente deitar olhos ao
tabuleiro desprovido de comida. Carregou no botão de chamada e em alguns
segundos vi Sierra entrar pelo quarto.
- Olá, Bella – cumprimentou-me.
O meu rosto iluminou-se quando vi a sua disposição. Sierra era morena
e tinha sempre o cabelo apanhado. A sua aparência era claramente latina,
heranças da sua família paterna.
- Porque não vieste logo quando toquei no botão? – Perguntei,
mostrando a frustração na minha voz.
- A médica queria verificar pessoalmente como tu estavas –
esclareceu-me. – Precisas de alguma coisa antes de eu me ir embora?
Adorava Sierra. Sempre que cuidava de mim fazia todos os possíveis
por ignorar qualquer entidade médica que estivesse presente. Era como se não
lhe interessasse a sua presença. Mas quando Dr. Peter a chamava, mesmo que
estivesse a um metro de distância dela e estivesse a ser ignorado o tempo todo,
Sierra mudava de atitude e mostrava toda a sua disponibilidade perante o
superior.
- Podias trazer-me um daqueles chupas que tens!
Ela riu.
- Já volto, então.
Sierra saiu do quarto depois de um aceno de cabeça a ambos os médicos
e o silêncio voltou a instalar-se. A situação estava ainda mais desconfortável
de aquando me anunciaram que tinha um tumor.


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