Encostei a cabeça às almofadas, olhando para todo o quarto menos para
os médicos. Era deveras desconcertante toda esta situação.
Sierra voltou, mais depressa do que o que eu esperava, e entregou-me
o chupa com um sorriso no rosto. Deu-me um beijo rápido na testa e saiu do
quarto sem dizer nada.
- Há quanto tempo não estás menstruada? – Perguntou Julia,
subitamente.
Eu desembrulhei o chupa com calma, enquanto pensava. A minha testa
enrugou-se e eu tentei fazer os cálculos de cabeça. Não me recordava.
- Não me lembro. Mas foi há pouco tempo, sei disso.
Peter pousou a minha ficha na mesa junto à porta e levou as mãos aos
bolsos da bata branca. Encostou-se à parede e olhou para o chão, pensativo.
- Continuo sem entender o que se está a passar – confessei.
Rodei o chupa na minha boca algumas vezes, sentindo o sabor agradável
a laranja. Mudei as almofadas de posição e sentei-me.
- Estás grávida – a voz do Dr. Peter ecoou no quarto.
O chupa caiu-me das mãos.
Pousou no lençol e eu senti o leve impacto. Estava coberto de saliva minha e eu
observei esta a ser engolida pelo tecido do lençol branco. Uma mancha laranja
começava agora a desenvolver-se. Lentamente, a cor foi ficando mais escura.
Até eu perceber que era eu que estava a semicerrar os olhos.
Soltei o ar que mantive preso nos pulmões, o meu corpo cada vez mais
pesado à medida que eu ia tentando regular a respiração.
- Posso ter o meu balde de volta?
De alguma forma eles conseguiram ouvir-me e Julia baixou-se e tirou
outro balde de debaixo da cama.
Vomitei de novo, desta vez voluntariamente. O simples pensamento de
me sentir enjoada impulsionou-me a despejar fora tudo o que tinha no estômago. Deram-me
outro lenço de papel, que eu recusei. Limpei a boca à mão enquanto observava o
meu próprio vómito. Afastei o balde da minha cara e não fui capaz de levantar o
olhar.
Só me ocorria a vergonha que era saberem que eu e Zayn tínhamos uma
relação sexual ativa. Se não o sabiam, pelo menos sabiam que tínhamos feito uma
vez e que o preservativo tinha rebentado. Era deveras humilhante. Não que me
envergonhasse de ser com Zayn; era
uma honra, honestamente. Eu amava-o e, do meu ponto de vista, era compreensível
que um casal partilhasse a sua intimidade. Eu sabia que o Dr. Peter e a Dra.
Julia estavam habituados a lidar com rapazes e raparigas da minha idade a
passarem pela experiência maravilhosa, e até mesmo, a lidarem com a frustração
de ter sempre dúvidas em relação ao assunto.
Mas quem era eu, que não sabia nada acerca disso?
Depois caí em realidade. As minhas mãos ficaram húmidas e eu senti
uma comichão horrível nas minhas costas. Afastei o lençol com o chupa e deixei
as minhas pernas expostas ao ar. Olhei para elas durante um longo período de
tempo, quieta. Os meus olhos viajaram até ao meu ventre onde eu imaginei
penosamente uma barriga grande. Pisquei os olhos duas vezes.
Aquela imagem desapareceu da minha mente, mas o terror continuou
presente.
- Não – murmurei.
Vários pensamentos atropelaram-se. Enquanto tentava desesperadamente
lidar com as palavras do Dr. Peter, passou-me uma imagem da minha mãe com Sam
nos seus braços; uma imagem de Louis a olhar para mim com um sorriso radioso; a
tia de Marie, Elizabeth, a arranjar-me o cabelo para o baile de máscaras; o meu
pai de mãos dadas comigo a passear por Lisboa; Zayn deitado na minha cama, com
os seus braços entrelançados no meu corpo e as suas pernas cruzadas com as
minhas, nu; e Nuno, no dia em que me pedira em namoro.
Eu não sei porque tinha eu pensado em Nuno. Lembro-me da nossa
relação problemática e do Pai o odiar. Apesar da nossa relação ter sido
(bastante) atribulada e problemática, era incrível. Não no sentido bom da
palavra. Durante ínfimas vezes estivéramos à beira de terminar tudo, mas quando
o ambiente entre nós ficava intenso – após uma discussão – era inevitável a
reconciliação. Nuno era a única pessoa que sabia das minhas cicatrizes, dos
meus problemas com o meu pai e dos meus segredos. Eu era dele, mas ele não era
meu. Eu pertencia-lhe; ele mandava em mim, eu fazia tudo o que ele mandava.
A nossa relação não era normal e eu sentia-me frustrada por só o ter
admitido dois anos depois do nosso primeiro ano juntos. Tinha lidado bem com a
situação, nisso eu tinha de estar orgulhosa. Acho que sempre fui muito forte de
espírito e por isso não quebrava com facilidade. Quer dizer, eu sofria maus
tratos do meu próprio pai. Eu era forte.
Quando Nuno e eu fazíamos relações sexuais, não usávamos o
preservativo. Ele cuidava todos os dias de eu tomar a pílula. Muitas vezes
ocorrera-me fingir que tomava o comprimido e depois deitava-o fora. Mas antes
de poder deitá-lo no lavatório, lembrava-me que engravidaria na certa e isso
assustava-me. Assustava-me demasiado porque era inevitável que eu seria
abandonada por Nuno e ainda mais castigada pelo meu pai. Além disso, Samuel
precisava de mim e eu não podia ter um filho. Eu nunca quis ter um filho.
Porém, mesmo eu sabendo que Nuno me abandonava no mesmo instante em
que soubesse que não tinha tomado a pílula e estava possivelmente grávida,
insistia em iludir-me. Em pensar que ele me amava.
- Bella? – Uma voz chamou-me.
Pisquei os olhos consecutivamente e a Dra. Julia estava à minha
frente com uma expressão preocupada no seu olhar.
- Bella, estás bem? – Voltou a falar.
Eu mantive-me em silêncio por uns momentos. Exigi depois para me
deixarem sozinha e não queria saber se alguém me quisesse ver. Nem a minha mãe,
nem Zayn, ninguém. Não queria ver ninguém. Quase gritei para que me deixassem
em paz. Ameacei até que se me drogassem com morfina que punha um processo em
cima do hospital. Eu precisava de estar consciente e pensar. Eu precisava
pensar.

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