quinta-feira, 11 de setembro de 2014

New Begginning - Capítulo 138


Encostei a cabeça às almofadas, olhando para todo o quarto menos para os médicos. Era deveras desconcertante toda esta situação.
Sierra voltou, mais depressa do que o que eu esperava, e entregou-me o chupa com um sorriso no rosto. Deu-me um beijo rápido na testa e saiu do quarto sem dizer nada.
- Há quanto tempo não estás menstruada? – Perguntou Julia, subitamente.
Eu desembrulhei o chupa com calma, enquanto pensava. A minha testa enrugou-se e eu tentei fazer os cálculos de cabeça. Não me recordava.
- Não me lembro. Mas foi há pouco tempo, sei disso.
Peter pousou a minha ficha na mesa junto à porta e levou as mãos aos bolsos da bata branca. Encostou-se à parede e olhou para o chão, pensativo.
- Continuo sem entender o que se está a passar – confessei.
Rodei o chupa na minha boca algumas vezes, sentindo o sabor agradável a laranja. Mudei as almofadas de posição e sentei-me.
- Estás grávida – a voz do Dr. Peter ecoou no quarto.
 O chupa caiu-me das mãos. Pousou no lençol e eu senti o leve impacto. Estava coberto de saliva minha e eu observei esta a ser engolida pelo tecido do lençol branco. Uma mancha laranja começava agora a desenvolver-se. Lentamente, a cor foi ficando mais escura.
Até eu perceber que era eu que estava a semicerrar os olhos.
Soltei o ar que mantive preso nos pulmões, o meu corpo cada vez mais pesado à medida que eu ia tentando regular a respiração.
- Posso ter o meu balde de volta?
De alguma forma eles conseguiram ouvir-me e Julia baixou-se e tirou outro balde de debaixo da cama.
Vomitei de novo, desta vez voluntariamente. O simples pensamento de me sentir enjoada impulsionou-me a despejar fora tudo o que tinha no estômago. Deram-me outro lenço de papel, que eu recusei. Limpei a boca à mão enquanto observava o meu próprio vómito. Afastei o balde da minha cara e não fui capaz de levantar o olhar.
Só me ocorria a vergonha que era saberem que eu e Zayn tínhamos uma relação sexual ativa. Se não o sabiam, pelo menos sabiam que tínhamos feito uma vez e que o preservativo tinha rebentado. Era deveras humilhante. Não que me envergonhasse de ser com Zayn; era uma honra, honestamente. Eu amava-o e, do meu ponto de vista, era compreensível que um casal partilhasse a sua intimidade. Eu sabia que o Dr. Peter e a Dra. Julia estavam habituados a lidar com rapazes e raparigas da minha idade a passarem pela experiência maravilhosa, e até mesmo, a lidarem com a frustração de ter sempre dúvidas em relação ao assunto.
Mas quem era eu, que não sabia nada acerca disso?
Depois caí em realidade. As minhas mãos ficaram húmidas e eu senti uma comichão horrível nas minhas costas. Afastei o lençol com o chupa e deixei as minhas pernas expostas ao ar. Olhei para elas durante um longo período de tempo, quieta. Os meus olhos viajaram até ao meu ventre onde eu imaginei penosamente uma barriga grande. Pisquei os olhos duas vezes.
Aquela imagem desapareceu da minha mente, mas o terror continuou presente.
- Não – murmurei.
Vários pensamentos atropelaram-se. Enquanto tentava desesperadamente lidar com as palavras do Dr. Peter, passou-me uma imagem da minha mãe com Sam nos seus braços; uma imagem de Louis a olhar para mim com um sorriso radioso; a tia de Marie, Elizabeth, a arranjar-me o cabelo para o baile de máscaras; o meu pai de mãos dadas comigo a passear por Lisboa; Zayn deitado na minha cama, com os seus braços entrelançados no meu corpo e as suas pernas cruzadas com as minhas, nu; e Nuno, no dia em que me pedira em namoro.
Eu não sei porque tinha eu pensado em Nuno. Lembro-me da nossa relação problemática e do Pai o odiar. Apesar da nossa relação ter sido (bastante) atribulada e problemática, era incrível. Não no sentido bom da palavra. Durante ínfimas vezes estivéramos à beira de terminar tudo, mas quando o ambiente entre nós ficava intenso – após uma discussão – era inevitável a reconciliação. Nuno era a única pessoa que sabia das minhas cicatrizes, dos meus problemas com o meu pai e dos meus segredos. Eu era dele, mas ele não era meu. Eu pertencia-lhe; ele mandava em mim, eu fazia tudo o que ele mandava.
A nossa relação não era normal e eu sentia-me frustrada por só o ter admitido dois anos depois do nosso primeiro ano juntos. Tinha lidado bem com a situação, nisso eu tinha de estar orgulhosa. Acho que sempre fui muito forte de espírito e por isso não quebrava com facilidade. Quer dizer, eu sofria maus tratos do meu próprio pai. Eu era forte.
Quando Nuno e eu fazíamos relações sexuais, não usávamos o preservativo. Ele cuidava todos os dias de eu tomar a pílula. Muitas vezes ocorrera-me fingir que tomava o comprimido e depois deitava-o fora. Mas antes de poder deitá-lo no lavatório, lembrava-me que engravidaria na certa e isso assustava-me. Assustava-me demasiado porque era inevitável que eu seria abandonada por Nuno e ainda mais castigada pelo meu pai. Além disso, Samuel precisava de mim e eu não podia ter um filho. Eu nunca quis ter um filho.
Porém, mesmo eu sabendo que Nuno me abandonava no mesmo instante em que soubesse que não tinha tomado a pílula e estava possivelmente grávida, insistia em iludir-me. Em pensar que ele me amava.
- Bella? – Uma voz chamou-me.
Pisquei os olhos consecutivamente e a Dra. Julia estava à minha frente com uma expressão preocupada no seu olhar.
- Bella, estás bem? – Voltou a falar.
Eu mantive-me em silêncio por uns momentos. Exigi depois para me deixarem sozinha e não queria saber se alguém me quisesse ver. Nem a minha mãe, nem Zayn, ninguém. Não queria ver ninguém. Quase gritei para que me deixassem em paz. Ameacei até que se me drogassem com morfina que punha um processo em cima do hospital. Eu precisava de estar consciente e pensar. Eu precisava pensar.

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