Peter e a Dra. Julia saíram do quarto sem mais uma palavra.
Voltei aos meus pensamentos de Nuno.
Ele era baterista, mas apenas como hobbie. Onde ele trabalhava mesmo era nas construções. Tinha
desistido da escola pouco tempo depois de começarmos a namorar e até já falava
em vivermos juntos. Era uma loucura.
Lembro-me perfeitamente da sua figura. Do seu rosto, do seu corpo...
A cor do seu cabelo era clara, quase como um loiro de um típico
surfista. Os seus lábios eram finos e os seus olhos grandes, cinzentos. Eu
tinha sido enfeitiçada por aqueles olhos, logo no primeiro momento em que o
conheci. E claro que tinha sido atraída pelo seu porte físico. Eu era bastante
tímida quando se tratava dele. Eu conseguia ser desinibida para todos os
rapazes que me apareciam à frente nas discotecas de Lisboa ou nos bares das praias,
e conseguia fazer cada rapariga invejar-me. Conquanto, Nuno tinha-me na palma
da mão. E ele sabia disso, obviamente. Depois de ter terminado a relação com
ele é que eu juntara várias peças do puzzle que era o nosso relacionamento.
Um dia, em casa dele e depois de termos tomado um banho juntos,
fiz-lhe o almoço. Um bitoque completo. Estávamos juntos na sua cozinha e eu
apenas tinha vestido umas cuecas lavadas e colocado um soutien, sentindo-me
sempre constrangida com o facto de os meus seios não serem perfeitos e normais
como os outros. Ele estava apenas de boxers, o que sempre me punha numa
ansiedade louca. Tentava concentrar-me em não queimar o arroz, quando ele se
colocou atrás de mim, subindo as mãos pelo meu ventre e criando-me arrepios na
pele.
- Cheira muito bem – murmurou ele ao meu ouvido. Eu sorri.
- Ainda é só o bife que está pronto, tonto – justifiquei. – Falta o
arroz e os ovos. Ou preferes sem ovos?
Eu tentava claramente manter-me ciente e consciente que tinha o arroz
ao lume e que não o podia deixar pegar-se ao tacho. Mas Nuno dificultava-me a
vida ao trincar-me a orelha sucessivamente. Conseguia notar um sorriso no seu
rosto e o poder dele sobre mim a toldar-me o espírito.
- Não vais querer arroz queimado – murmurei.
Ele nada disse. Continuou com a sua brincadeira de me distrair do
almoço, acariciando-me com a ponta do seu nariz na concavidade do meu pescoço.
Um frenesim fez-se sentir no meu interior. As suas mãos deteram-se em ambos os
meus braços e senti-o a virar-me de frente para ele. Uma madeixa de cabelo estava
à frente dos meus olhos e ele levantou a mão para a prender atrás da minha
orelha. Olhei-o nos olhos e vi que estavam diferentes, naquele dia. E a minha
respiração tinha parado, eu bem me lembrava. Nos seus olhos eu não via o Nuno
possessivo e controlador de todos os dias. A sua cor acinzentada tinha
suavizado e eu conseguia ver tons azulados na sua íris. A minha garganta estava
seca e eu atrevera-me a levar a mão ao seu peito.
- Era capaz de viver assim para sempre – murmurou e o meu coração
doeu.
Tinha sido capaz de lhe dizer que o amava, que o queria sempre, que
precisava dele assim, calmo e a demonstrar tudo o que aquele olhar continha.
Mas involuntariamente levei a minha mão ao seu rosto e acariciei-o ao de leve.
Esse gesto tinha sido o fim de tudo em que eu mantinha esperanças. O seu olhar
tornou-se mais escuro e o azul frágil tinha desaparecido no meio daquele
cinzento escuro dos seus olhos. Tinha voltado ao Nuno perverso que eu conhecia
tão bem.
Provavelmente, fora a partir daí que eu decidira ganhar um pouco de
coragem todos os dias e ir recusando algumas ordens que ele me dava. Como por
exemplo faltar às aulas. Ou escapar durante a noite para junto dele. Deixei de
atender a alguns telefonemas, desculpando-me a dizer que o meu pai estava junto
de mim, quando na verdade eu simplesmente queria era ler um livro.
Abanei a cabeça, sentindo as lágrimas finalmente caírem pesadas no
meu colo.
Não conseguia sequer admitir a mim própria o que estava a acontecer,
no aqui e no agora, e a única coisa em que pensava era recordar o único
namorado que eu tive em toda a minha vida? O namorado possessivo e controlador.
Quando eu tinha claramente uma das melhores pessoas comigo. O segundo homem
mais importante da minha vida a apoiar-me na fase mais difícil da minha vida. E
tudo em que eu pensava era numa relação problemática que já nem existia.
Apetecia-me gritar.
Apetecia-me sair dali.
Hesitei uns momentos antes de respirar fundo e arrancar a agulha da
minha mão, sentindo a dor aguda naquela zona. Gemi com a dor, mas soltei-me de
todas as coisas que me mantinham presa àquela cama.
Caminhei, cambaleante, até ao armário para tirar a minha sweat. Ainda
tinha vestígios de sangue seco, mas não liguei para o assunto. Puxei o capus
para a frente depois de a ter vestido e enfiei uns chinelos do hospital nos
pés.
Saí do quarto para o corredor. Uma enfermeira tinha acabado de entrar
num quarto e eu suspirei de alívio. Vi uma secretária com outra enfermeira, mas
estava demasiado concentrada a fazer o quer que fosse para ter de vigiar o
corredor. Eu estava familiarizada com o sítio. Alguns minutos depois fui capaz
de me esgueirar a qualquer entidade do hospital e consegui chegar à sala de
espera da respetiva ala onde eu estava instalada.
Vi Louis em pé, a olhar para o vazio. Estava mais pálido do que o meu
irmão alguma vez fora. Vi Zayn, com a cabeça entre os joelhos, e Liam ao seu
lado.
Ele já sabe. Eles já
sabem.
Um nó formou-se na minha garganta. Senti a bílis a subir-me À
garganta e apeteceu-me vomitar de novo. Porém, eu não tinha nada no estômago e
a vontade engasgou-me. Fiquei a observar os movimentos dos três, escondida
atrás das portas que nos separavam. Era demasiado doloroso. Eu sabia que ele
nunca iria aceitar. Podia arruiná-lo. Podia arruiná-los. E eu não queria isso. Não podia permitir que eles perdessem
toda a carreira deles por minha
causa.
Queria ver o seu rosto, mas Zayn continuava de cabeça rebaixada.
- Por favor, Zany, por
favor levanta a cabeça – murmurei em agonia.
As suas mãos tremiam-lhe a agarrar no cabelo, um sinal óbvio de
stress. Ele suava da testa e limpava-a vagamente de tempos a tempos. Liam
encostou o seu rosto ao ombro de Zayn e sussurrou algo que eu não pude
perceber. Zayn remexeu-se no seu lugar e a sua voz elevou-se. “Eu não sei!”,
disse ele. O meu lábio tremeu.
Depois de afagar uma vez mais o seu cabelo, ergueu o rosto e o seu
olhar estava baço. Ele estava desfeito.
Virou o olhar na minha direção e reconheceu-me. Dois segundos
pareceram uma eternidade. Os olhares que trocámos em silêncio estavam cheios de
palavras presas na nossa garganta. Senti-me fraca. Eu ia perdê-lo, eu sabia
disso. Estava tudo acabado.

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