quinta-feira, 11 de setembro de 2014

New Begginning - Capítulo 139


Peter e a Dra. Julia saíram do quarto sem mais uma palavra.
Voltei aos meus pensamentos de Nuno.
Ele era baterista, mas apenas como hobbie. Onde ele trabalhava mesmo era nas construções. Tinha desistido da escola pouco tempo depois de começarmos a namorar e até já falava em vivermos juntos. Era uma loucura.
Lembro-me perfeitamente da sua figura. Do seu rosto, do seu corpo...
A cor do seu cabelo era clara, quase como um loiro de um típico surfista. Os seus lábios eram finos e os seus olhos grandes, cinzentos. Eu tinha sido enfeitiçada por aqueles olhos, logo no primeiro momento em que o conheci. E claro que tinha sido atraída pelo seu porte físico. Eu era bastante tímida quando se tratava dele. Eu conseguia ser desinibida para todos os rapazes que me apareciam à frente nas discotecas de Lisboa ou nos bares das praias, e conseguia fazer cada rapariga invejar-me. Conquanto, Nuno tinha-me na palma da mão. E ele sabia disso, obviamente. Depois de ter terminado a relação com ele é que eu juntara várias peças do puzzle que era o nosso relacionamento.
Um dia, em casa dele e depois de termos tomado um banho juntos, fiz-lhe o almoço. Um bitoque completo. Estávamos juntos na sua cozinha e eu apenas tinha vestido umas cuecas lavadas e colocado um soutien, sentindo-me sempre constrangida com o facto de os meus seios não serem perfeitos e normais como os outros. Ele estava apenas de boxers, o que sempre me punha numa ansiedade louca. Tentava concentrar-me em não queimar o arroz, quando ele se colocou atrás de mim, subindo as mãos pelo meu ventre e criando-me arrepios na pele.
- Cheira muito bem – murmurou ele ao meu ouvido. Eu sorri.
- Ainda é só o bife que está pronto, tonto – justifiquei. – Falta o arroz e os ovos. Ou preferes sem ovos?
Eu tentava claramente manter-me ciente e consciente que tinha o arroz ao lume e que não o podia deixar pegar-se ao tacho. Mas Nuno dificultava-me a vida ao trincar-me a orelha sucessivamente. Conseguia notar um sorriso no seu rosto e o poder dele sobre mim a toldar-me o espírito.
- Não vais querer arroz queimado – murmurei.
Ele nada disse. Continuou com a sua brincadeira de me distrair do almoço, acariciando-me com a ponta do seu nariz na concavidade do meu pescoço. Um frenesim fez-se sentir no meu interior. As suas mãos deteram-se em ambos os meus braços e senti-o a virar-me de frente para ele. Uma madeixa de cabelo estava à frente dos meus olhos e ele levantou a mão para a prender atrás da minha orelha. Olhei-o nos olhos e vi que estavam diferentes, naquele dia. E a minha respiração tinha parado, eu bem me lembrava. Nos seus olhos eu não via o Nuno possessivo e controlador de todos os dias. A sua cor acinzentada tinha suavizado e eu conseguia ver tons azulados na sua íris. A minha garganta estava seca e eu atrevera-me a levar a mão ao seu peito.
- Era capaz de viver assim para sempre – murmurou e o meu coração doeu.
Tinha sido capaz de lhe dizer que o amava, que o queria sempre, que precisava dele assim, calmo e a demonstrar tudo o que aquele olhar continha. Mas involuntariamente levei a minha mão ao seu rosto e acariciei-o ao de leve. Esse gesto tinha sido o fim de tudo em que eu mantinha esperanças. O seu olhar tornou-se mais escuro e o azul frágil tinha desaparecido no meio daquele cinzento escuro dos seus olhos. Tinha voltado ao Nuno perverso que eu conhecia tão bem.
Provavelmente, fora a partir daí que eu decidira ganhar um pouco de coragem todos os dias e ir recusando algumas ordens que ele me dava. Como por exemplo faltar às aulas. Ou escapar durante a noite para junto dele. Deixei de atender a alguns telefonemas, desculpando-me a dizer que o meu pai estava junto de mim, quando na verdade eu simplesmente queria era ler um livro.
Abanei a cabeça, sentindo as lágrimas finalmente caírem pesadas no meu colo.
Não conseguia sequer admitir a mim própria o que estava a acontecer, no aqui e no agora, e a única coisa em que pensava era recordar o único namorado que eu tive em toda a minha vida? O namorado possessivo e controlador. Quando eu tinha claramente uma das melhores pessoas comigo. O segundo homem mais importante da minha vida a apoiar-me na fase mais difícil da minha vida. E tudo em que eu pensava era numa relação problemática que já nem existia.
Apetecia-me gritar.
Apetecia-me sair dali.
Hesitei uns momentos antes de respirar fundo e arrancar a agulha da minha mão, sentindo a dor aguda naquela zona. Gemi com a dor, mas soltei-me de todas as coisas que me mantinham presa àquela cama.
Caminhei, cambaleante, até ao armário para tirar a minha sweat. Ainda tinha vestígios de sangue seco, mas não liguei para o assunto. Puxei o capus para a frente depois de a ter vestido e enfiei uns chinelos do hospital nos pés.
Saí do quarto para o corredor. Uma enfermeira tinha acabado de entrar num quarto e eu suspirei de alívio. Vi uma secretária com outra enfermeira, mas estava demasiado concentrada a fazer o quer que fosse para ter de vigiar o corredor. Eu estava familiarizada com o sítio. Alguns minutos depois fui capaz de me esgueirar a qualquer entidade do hospital e consegui chegar à sala de espera da respetiva ala onde eu estava instalada.
Vi Louis em pé, a olhar para o vazio. Estava mais pálido do que o meu irmão alguma vez fora. Vi Zayn, com a cabeça entre os joelhos, e Liam ao seu lado.
Ele já sabe. Eles já sabem.
Um nó formou-se na minha garganta. Senti a bílis a subir-me À garganta e apeteceu-me vomitar de novo. Porém, eu não tinha nada no estômago e a vontade engasgou-me. Fiquei a observar os movimentos dos três, escondida atrás das portas que nos separavam. Era demasiado doloroso. Eu sabia que ele nunca iria aceitar. Podia arruiná-lo. Podia arruiná-los. E eu não queria isso. Não podia permitir que eles perdessem toda a carreira deles por minha causa.
Queria ver o seu rosto, mas Zayn continuava de cabeça rebaixada.
- Por favor, Zany, por favor levanta a cabeça – murmurei em agonia.
As suas mãos tremiam-lhe a agarrar no cabelo, um sinal óbvio de stress. Ele suava da testa e limpava-a vagamente de tempos a tempos. Liam encostou o seu rosto ao ombro de Zayn e sussurrou algo que eu não pude perceber. Zayn remexeu-se no seu lugar e a sua voz elevou-se. “Eu não sei!”, disse ele. O meu lábio tremeu.
Depois de afagar uma vez mais o seu cabelo, ergueu o rosto e o seu olhar estava baço. Ele estava desfeito.
Virou o olhar na minha direção e reconheceu-me. Dois segundos pareceram uma eternidade. Os olhares que trocámos em silêncio estavam cheios de palavras presas na nossa garganta. Senti-me fraca. Eu ia perdê-lo, eu sabia disso. Estava tudo acabado.

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