sábado, 27 de setembro de 2014

New Begginning - Capítulo 140


Ele levantou-se num pulo e caminhou na minha direção. Recuei. Recusava-me a encará-lo com vergonha de mim mesma.
- Bells – disse ele, num sibilo preso.
As lágrimas brotaram-me de novo no rosto e a minha visão ficou turva. No entanto, eu estava perfeitamente consciente e não me parecia que fosse desmaiar de novo. Devia ser a adrenalina. Eu queria sair dali.
Virei-lhe as costas e procurei pelo primeiro sinal de saída que encontrasse. Corri pelo corredor fora, ouvindo-o gritar e depois Liam também a chamar-me. Ignorei-os. Virei na direção oposta à do meu quarto e avistei uma porta que dava acesso às escadas.
Sentia-me medrosa, com demasiado medo de Peter e de Julia. Com medo de como a minha mãe fosse reagir, com medo da rejeição por parte da família de Zayn e, pior, da rejeição dele. Desci as escadas à máxima velocidade possível, temendo ouvir a voz dele.
- Bells! – Gritou ele e eu gemi.
Ele era mais rápido que eu, sem dúvida, então abri outra porta, noutro piso, e descobri-me nas Urgências do Hospital. Contornei várias pessoas e desapareci da vista da porta por onde saí. Tentei andar com normalidade, mas isso não desviava o olhar dos outros. Eu estava com a bata de doente e a sweat coberta de sangue seco, ainda. Não tinha outra solução de vestuário, então não pensei mais no assunto.
Quando descobri a saída do Hospital, senti o ar fresco contra o meu rosto e semicerrei os olhos. Senti o vento contornar-me as pernas despidas à medida que caminhava na direção da saída do parque de estacionamento. Sempre que vinha com algum dos rapazes para o Hospital, não prestava grande atenção ao caminho que fazíamos, mas fui capaz de saber como sair da propriedade. Caminhei durante algum tempo, sentindo os meus pés doridos.
Não sabia que horas eram, sentia-me com frio e precisava de comer. Durante mais alguns minutos consegui perceber onde estava. Reconhecia aquela zona, era onde Marie vivia. Mas eu não queria vê-la, não queria ver ninguém que soubesse. Continuei a contornar as ruas e acabei a olhar, parada, para a montra de um café. Diversos bolos estavam expostos e cada um mais apetecível que o outro. Cresceu água na minha boca e eu tive que engolir em seco duas vezes.
- Bella? – Ouvi uma voz dizer o meu nome.
Com o susto dei um salto, virando-me para a direção de onde vinha. Uma mulher baixinha e com o cabelo muito bem arranjado e saudável olhava-me espectante.
- Sim? – Respondi, com a voz arranhada. Aclarei a garganta. – Conheço-a?
Ela continuou a olhar para mim durante uns longos momentos. Piscou os olhos duas vezes.
- Elizabeth Joyce. A tia de Marie.
Foi aí que me lembrei. Como me podia esquecer? A mulher bem-disposta que me arranjara o cabelo para o baile de máscaras que determinou o que eu sentia por Zayn. No entanto, ela parecia-me apagada. A sua aura alegre tinha desaparecido e por isso é que não a tinha reconhecido.
- Peço desculpa, não estava a reconhecê-la. Como está?
Ela aproximou-se de mim e eu também dei alguns passos na sua direção. Percebi que estava a tremer de frio e agarrei-me ao meu próprio corpo em busca de algum calor.
- Estás a gelar de frio! – Exclamou. – Oh, querida, o que aconteceu? Anda comigo, eu pago-te um chocolate quente.
Eu teria reclamado se estivesse noutra situação, mas não tinha dinheiro e estava fraca. Precisava comer qualquer coisa e algo quente iria com certeza acabar com a sensação de fadiga que eu tinha. Entrámos no café onde eu tinha babado para cima do vidro e o meu corpo tremeu violentamente. Senti o calor envolver-me a pele aos poucos, dando-me vários arrepios que me souberam bem. Sentámo-nos à frente de uma mesa pequena e discreta. Ela retirou o casaco e de tempos a tempos lançava-me olhares. Eu mantive a sweat.
- O que é isso na tua camisola? – Inquiriu, enrugando a testa.
Hesitei.
- É... sangue seco.
O choque na cara dela foi óbvio. Expliquei rapidamente o porquê, sem referir que logo a seguir desmaiei e passei o resto do dia no hospital, até agora.
Um empregado jovem apareceu e deu-nos os bons dias. Elizabeth fez o pedido por mim quando percebeu que eu não queria falar. Pediu um chá de jasmim para ela e um chocolate quente para mim. Pediu também especificamente uns bolos que eu tinha galado na montra, lá fora. Não me dirigiu a palavra durante algum tempo e eu não cheguei à conclusão se seria por não saber exatamente o que dizer, ou, para me deixar à vontade.
- Obrigada pelo chocolate quente.
Falei apressadamente, sabendo que era meu dever agradecer o gesto. Ela sorriu para mim e antes que pudesse dizer algo, o empregado aproximou-se da mesa com o chá de Elizabeth e os bolinhos num tabuleiro. Tinham um aspeto delicioso. Desculpou-se pelo chocolate, justificando que o trazia já de imediato.
- Como tens estado, querida? A Marie tem falado de ti.
Elizabeth colocou o prato dos bolinhos à minha frente, num gesto a incentivar-me a comer. A minha garganta ficou seca quando percebi que ela sabia do cancro.
- Tenho estado melhor. A cirurgia correu bem e a recuperação foi boa – expliquei, pegando num bolinho e metendo-o na boca.
- Marie também me disse isso – mostrou um sorriso.
O empregado voltou novamente, entregando-me o chocolate com um sorriso curto. Perguntei a Elizabeth como estava ela, uma tentativa de mudar o rumo da conversa. Contou-me que estava a tentar abrir um salão de cabeleireiros, mas que o banco dificultava essa decisão. Tinha pedido um empréstimo, mas recusaram duas vezes.
- À terceira terá que ser de vez – comentou com uma gargalhada.
Eu percebi que não tinha grandes esperanças nisso, mas tudo o que fiz foi sorrir em motivação.
A sua testa enrugou-se como se pensasse noutra coisa.
- Bella, de certeza que está tudo bem? Pareces muito cansada.
Beberiquei o meu chocolate, percebendo que já se encontrava a meio. Tirei outro bolinho do prato, comendo-o antes de voltar a falar. Não sabia bem exatamente o que lhe devia dizer. Nada indicava que ela me pudesse fazer mal e eu duvidava seriamente se isso fazia parte dos seus planos.
- Estava no hospital porque desmaiei – comecei por dizer. Clareei a garganta. – quando sangrei do nariz, em Londres.
As suas narinas dilataram-se visivelmente e percorreu o meu corpo com os olhos alarmados. Eu mantive-me calma e suspirei.
- Apenas estou cansada. As notícias que me deram não faziam parte dos meus planos.
- Mas está tudo bem? O cancro alastrou-se? – Perguntou, claramente preocupada.
Eu sorri perante a preocupação.
- Que eu saiba, está tudo controlado com o cancro. – Baixei a minha voz. – Antes fosse em relação ao tumor.
Ela arqueou uma sobrancelha e mexeu o chá enquanto lhe juntava leite. O meu lábio tremeu, observando-a. Sentia-me em choque com a notícia que recebera há não sei quanto tempo mas de alguma maneira consegui manter-me calma. Eu realmente preferia lidar apenas com a doença, mesmo que isso significasse esta agravar-se. Precisei de meses antes que pudesse lidar com toda esta situação e, agora, por causa de uma atitude estúpida e irresponsável, podia ter deitado tudo a perder.
O pior de tudo é realmente saber que eu suspeitava que isto pudesse acontecer.
- Precisas de alguém com quem falar, Bella – falou Elizabeth, puxando-me dos meus pensamentos. – E imagino que não o quisesses fazer com nenhum dos teus amigos ou com a tua mãe.
A sua voz era gentil. Bebi mais um pouco de chocolate, acabando-o em segundos. Respirei fundo e deixei-me abater pela realidade.

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