Ele levantou-se num pulo e caminhou na minha direção. Recuei.
Recusava-me a encará-lo com vergonha de mim mesma.
- Bells – disse ele, num sibilo preso.
As lágrimas brotaram-me de novo no rosto e a minha visão ficou turva.
No entanto, eu estava perfeitamente consciente e não me parecia que fosse
desmaiar de novo. Devia ser a adrenalina. Eu queria sair dali.
Virei-lhe as costas e procurei pelo primeiro sinal de saída que
encontrasse. Corri pelo corredor fora, ouvindo-o gritar e depois Liam também a
chamar-me. Ignorei-os. Virei na direção oposta à do meu quarto e avistei uma
porta que dava acesso às escadas.
Sentia-me medrosa, com demasiado medo de Peter e de Julia. Com medo
de como a minha mãe fosse reagir, com medo da rejeição por parte da família de
Zayn e, pior, da rejeição dele. Desci as escadas à máxima velocidade possível,
temendo ouvir a voz dele.
- Bells! – Gritou ele e eu gemi.
Ele era mais rápido que eu, sem dúvida, então abri outra porta,
noutro piso, e descobri-me nas Urgências do Hospital. Contornei várias pessoas
e desapareci da vista da porta por onde saí. Tentei andar com normalidade, mas
isso não desviava o olhar dos outros. Eu estava com a bata de doente e a sweat
coberta de sangue seco, ainda. Não tinha outra solução de vestuário, então não
pensei mais no assunto.
Quando descobri a saída do Hospital, senti o ar fresco contra o meu
rosto e semicerrei os olhos. Senti o vento contornar-me as pernas despidas à
medida que caminhava na direção da saída do parque de estacionamento. Sempre
que vinha com algum dos rapazes para o Hospital, não prestava grande atenção ao
caminho que fazíamos, mas fui capaz de saber como sair da propriedade. Caminhei
durante algum tempo, sentindo os meus pés doridos.
Não sabia que horas eram, sentia-me com frio e precisava de comer. Durante
mais alguns minutos consegui perceber onde estava. Reconhecia aquela zona, era
onde Marie vivia. Mas eu não queria vê-la, não queria ver ninguém que soubesse. Continuei a contornar as ruas
e acabei a olhar, parada, para a montra de um café. Diversos bolos estavam
expostos e cada um mais apetecível que o outro. Cresceu água na minha boca e eu
tive que engolir em seco duas vezes.
- Bella? – Ouvi uma voz dizer o meu nome.
Com o susto dei um salto, virando-me para a direção de onde vinha.
Uma mulher baixinha e com o cabelo muito bem arranjado e saudável olhava-me
espectante.
- Sim? – Respondi, com a voz arranhada. Aclarei a garganta. –
Conheço-a?
Ela continuou a olhar para mim durante uns longos momentos. Piscou os
olhos duas vezes.
- Elizabeth Joyce. A tia de Marie.
Foi aí que me lembrei. Como me podia esquecer? A mulher bem-disposta
que me arranjara o cabelo para o baile de máscaras que determinou o que eu
sentia por Zayn. No entanto, ela parecia-me apagada. A sua aura alegre tinha
desaparecido e por isso é que não a tinha reconhecido.
- Peço desculpa, não estava a reconhecê-la. Como está?
Ela aproximou-se de mim e eu também dei alguns passos na sua direção.
Percebi que estava a tremer de frio e agarrei-me ao meu próprio corpo em busca
de algum calor.
- Estás a gelar de frio! – Exclamou. – Oh, querida, o que aconteceu?
Anda comigo, eu pago-te um chocolate quente.
Eu teria reclamado se estivesse noutra situação, mas não tinha
dinheiro e estava fraca. Precisava comer qualquer coisa e algo quente iria com
certeza acabar com a sensação de fadiga que eu tinha. Entrámos no café onde eu
tinha babado para cima do vidro e o meu corpo tremeu violentamente. Senti o
calor envolver-me a pele aos poucos, dando-me vários arrepios que me souberam
bem. Sentámo-nos à frente de uma mesa pequena e discreta. Ela retirou o casaco
e de tempos a tempos lançava-me olhares. Eu mantive a sweat.
- O que é isso na tua camisola? – Inquiriu, enrugando a testa.
Hesitei.
- É... sangue seco.
O choque na cara dela foi óbvio. Expliquei rapidamente o porquê, sem
referir que logo a seguir desmaiei e passei o resto do dia no hospital, até
agora.
Um empregado jovem apareceu e deu-nos os bons dias. Elizabeth fez o
pedido por mim quando percebeu que eu não queria falar. Pediu um chá de jasmim
para ela e um chocolate quente para mim. Pediu também especificamente uns bolos
que eu tinha galado na montra, lá fora. Não me dirigiu a palavra durante algum
tempo e eu não cheguei à conclusão se seria por não saber exatamente o que
dizer, ou, para me deixar à vontade.
- Obrigada pelo chocolate quente.
Falei apressadamente, sabendo que era meu dever agradecer o gesto.
Ela sorriu para mim e antes que pudesse dizer algo, o empregado aproximou-se da
mesa com o chá de Elizabeth e os bolinhos num tabuleiro. Tinham um aspeto
delicioso. Desculpou-se pelo chocolate, justificando que o trazia já de
imediato.
- Como tens estado, querida? A Marie tem falado de ti.
Elizabeth colocou o prato dos bolinhos à minha frente, num gesto a
incentivar-me a comer. A minha garganta ficou seca quando percebi que ela sabia
do cancro.
- Tenho estado melhor. A cirurgia correu bem e a recuperação foi boa
– expliquei, pegando num bolinho e metendo-o na boca.
- Marie também me disse isso – mostrou um sorriso.
O empregado voltou novamente, entregando-me o chocolate com um
sorriso curto. Perguntei a Elizabeth como estava ela, uma tentativa de mudar o
rumo da conversa. Contou-me que estava a tentar abrir um salão de
cabeleireiros, mas que o banco dificultava essa decisão. Tinha pedido um
empréstimo, mas recusaram duas vezes.
- À terceira terá que ser de vez – comentou com uma gargalhada.
Eu percebi que não tinha grandes esperanças nisso, mas tudo o que fiz
foi sorrir em motivação.
A sua testa enrugou-se como se pensasse noutra coisa.
- Bella, de certeza que está tudo bem? Pareces muito cansada.
Beberiquei o meu chocolate, percebendo que já se encontrava a meio.
Tirei outro bolinho do prato, comendo-o antes de voltar a falar. Não sabia bem
exatamente o que lhe devia dizer. Nada indicava que ela me pudesse fazer mal e
eu duvidava seriamente se isso fazia parte dos seus planos.
- Estava no hospital porque desmaiei – comecei por dizer. Clareei a
garganta. – quando sangrei do nariz, em Londres.
As suas narinas dilataram-se visivelmente e percorreu o meu corpo com
os olhos alarmados. Eu mantive-me calma e suspirei.
- Apenas estou cansada. As notícias que me deram não faziam parte dos
meus planos.
- Mas está tudo bem? O cancro alastrou-se? – Perguntou, claramente
preocupada.
Eu sorri perante a preocupação.
- Que eu saiba, está tudo controlado com o cancro. – Baixei a minha
voz. – Antes fosse em relação ao tumor.
Ela arqueou uma sobrancelha e mexeu o chá enquanto lhe juntava leite.
O meu lábio tremeu, observando-a. Sentia-me em choque com a notícia que
recebera há não sei quanto tempo mas de alguma maneira consegui manter-me
calma. Eu realmente preferia lidar apenas com a doença, mesmo que isso
significasse esta agravar-se. Precisei de meses antes que pudesse lidar com
toda esta situação e, agora, por causa de uma atitude estúpida e irresponsável,
podia ter deitado tudo a perder.
O pior de tudo é realmente saber que eu suspeitava que isto pudesse acontecer.
- Precisas de alguém com quem falar, Bella – falou Elizabeth,
puxando-me dos meus pensamentos. – E imagino que não o quisesses fazer com
nenhum dos teus amigos ou com a tua mãe.
A sua voz era gentil. Bebi mais um pouco de chocolate, acabando-o em segundos. Respirei fundo e deixei-me abater pela realidade.

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