- No hospital conheci a médica Julia. Ao início pensei que ela fosse
uma enfermeira, mas disse-me que trabalhava na obstetrícia e eu, sinceramente,
não sabia com o que se relacionava – Elizabeth ia falar, mas eu continuei a
despejar palavras – Foi então que começaram a fazer-me perguntas sobre a minha
menstruação e sobre enjoos. Eu, mesmo assim, não percebi do que estavam a falar
e muitas vezes, durante minutos, o ambiente no quarto tinha ficado estranho.
Depois Sierra veio e deu-me um chupa de laranja.
- Ela sempre cuida de mim quando eu estou no hospital. Claro que
estranhei quando hoje a médica respondeu quando carreguei no botão de chamada,
mas não disse nada porque nunca pensei que pudesse ser algo fora do normal. E
quando o Dr. Peter disse que eu estava grávida, eu juro por tudo que desejei
que isto fosse tudo um sonho e eu acordasse no segundo a seguir. Mas os
segundos tornaram-se minutos e eu não estava num sonho ou num pesadelo. Estava
bem acordada.
O meu rosto aqueceu-se com as lágrimas que me escorriam pelas
bochechas. Elizabeth remexeu-se na cadeira e olhou pensativa para a mesa.
Depois levantou-se e vestiu o casaco. Chamou o empregado com uma mão e ele
preparou a conta.
- Vem comigo. Tenho uma coisa para te mostrar.
Depois de pagar a conta e dar os bons dias ao mesmo empregado que nos
atendeu, Elizabeth encaminhou-me pela rua acima.
- Posso avisar Marie que estás comigo? Tenho a certeza que estão
todos preocupados.
Assenti com um aceno de cabeça. As lágrimas tinham secado devido ao
vento frio que se fazia sentir. Ainda não sabia que horas eram. Ouvi-a falar ao
telefone e tentar acalmar Marie. Sorri timidamente, percebendo a aflição da
minha amiga.
- Dá-lhe tempo, sobrinha. Ela está bem. Avisa a sua família. –
Esperou, ouvindo a resposta de Marie – Ele que se acalme. Garanto que depois
ligo para ele a vir buscar.
Percebi que se tratava de Zayn. Chamei a atenção de Elizabeth,
indicando com aflição para que não fosse Zayn a vir buscar-me. Ela fez um
trejeito.
- Marie, se calhar é melhor vir o Niall. – Elizabeth olhava para mim
e eu trinquei a língua. – Sim. Eu depois digo qualquer coisa. Até logo,
querida.
Pouco tempo depois chegámos à entrada de uma casa pequena e
semelhante à minha. A sua estrutura era rochosa, tal como a minha. O jardim
tinha um ar bem cuidado e colorido. Segui Elizabeth para dentro da propriedade
e cedeu-me a passagem para dentro de casa.
Estava quente e eu guiei os meus olhos pela sala bem decorada. A
mobília era toda em madeira e alguns armários tinham porta de vidros. Um
armário junto à lareira era preenchido por vários livros e enciclopédias sobre
o Mundo. Noutra cómoda estavam expostas várias fotografias de família e eu
reconheci Elizabeth e Marie em algumas delas. Ambas com um sorriso na cara em
todas as captações. Identifiquei um rapaz mais velho que Marie e,
possivelmente, da idade da minha mãe. As suas feições eram muito parecidas à de
Elizabeth.
- É o seu irmão? – Perguntei, mal me apercebendo da má educação que
tinha sido da minha parte bisbilhotar.
- Não, querida. É o meu filho.
- Parece muito velho para ser seu filho. – Quando percebi o que tinha
dito, arregalei os olhos. – Lamento se a ofendi.
Ela riu, totalmente despreocupada. Colocou o casaco no sofá e
ofereceu-se para lavar a minha sweatshirt. Desapareceu da sala e pouco depois
apareceu com um robe castanho.
- Veste isto para não resfriares – mandou.
Vesti de bom grado o robe que era bastante confortável. Senti-me
cansada, de repente.
Elizabeth ligou a televisão mas manteve o som baixo. Sentou-se ao meu
lado depois de pegar numa moldura com a fotografia dela e do seu filho.
- O seu nome é Jack. – Disse ela. Peguei na moldura para observar
melhor.
Ambos estavam em pé e tinham sido apanhados desprevenidos. Ela olhava
para o seu filho com um sorriso radiante e orgulhoso. Jack ostentava outro
sorriso enorme e eu quase conseguia ouvir as suas gargalhadas quando foi
apanhado na fotografia. O plano de fundo definitivamente que era o jardim
principal de sua casa.
- Na altura foi o único nome que me ocorreu. Parece ser demasiado
vulgar, mas não penso assim. Acho que nenhuma mãe pensa assim.
Deu uma gargalhada que rapidamente se transformou num suspiro. Olhei
para ela com cautela. Observava a moldura que eu ainda segurava, um sorriso
triste plantado no seu rosto. Tive a pequena impressão que o final da história
que estava prestes a contar-me não tinha um final feliz.
- Que idade tinha a Elizabeth quando deu à luz?
Mudou de posição no sofá e o seu corpo descontraiu-se. Olhou para mim
por dois segundos e depois focou o olhar noutro ponto algures da sala. Sorriu levemente
ao recordar essa memória.
- Era pouco mais velha que tu. Tinha dezanove anos.
A sua voz estava serena e se assim não o fosse eu podia dizer que ela
lamentava ter tido o filho. Aproximei-me mais dela, querendo ouvir o resto da
história.
- Aquela altura era muito diferente dos dias de hoje. Quer dizer,
onde nós estamos houve muito poucas mudanças em relação ao plano geográfico.
Mas as pessoas eram diferentes. As coisas eram mais calmas e havia respeito
mútuo nos bairros. As raparigas vestiam-se com muito cuidado para impressionar
os rapazes.
Riu entre as palavras, como se aquilo lhe tivesse lembrado algo.
- Eu usava imensos vestidos de variadas cores. O meu armário era como
um arco-íris.
E ainda assim, Elizabeth estava vestida com cores neutras e escuras. Diversos
tons de preto. Arqueei uma sobrancelha.
- Conheci Hugh com dezasseis anos. Um dia fui passear ao mercado e
havia novos comerciantes. Hugh era filho de um deles. Era mais velho dois anos,
o que atraía a atenção da maior parte das raparigas. Incluindo das minhas
amigas.
Ela olhou para mim e pigarreou.
- Mas não a mim. Não achava graça nenhuma ao rapaz. Era bem parecido,
muito bonito, realmente. Mas não me despertou interesse nenhum.
- A senhora é que despertou o interesse dele em si – afirmei.
Ela concordou, sorrindo.
- Durante semanas andou atrás de mim a insistir para que me levasse
ao cinema. E eu recusava sempre. Por fim eu fartei-me de o ter sempre à perna e
aceitei o convite. Devias de ter visto a felicidade dele.
Elizabeth sorriu ainda mais com a memória. Levantou-se do sofá e
vasculhou dentro da mobília das fotografias, entre os álbuns antigos que
guardava. Consegui vislumbrar algumas fotografias bastante antigas, mas apenas
pela cor e pelo desgaste do papel.
- Ah! Aqui está – disse ela, voltando para junto de mim e passando-me
uma pequena foto.
Era ela e Hugh.

Sem comentários:
Enviar um comentário