Olhei para o relógio. Duas e
meia. Tinha imenso tempo até às sete. Enquanto me perdia em Londres – já
não sabia como encontrar a loja da H&M, mas pouco importava – ia reparando
que as pessoas eram um bocado diferentes dos portugueses. Refiro-me em questões
de estilos. Havia imensos skaters, atraentes por acaso. Alguns fizeram-me olhinhos
quando passavam por mim e eu retribuía com um sorriso tímido. Havia também
alguns hipsters, o que me fascinou pois era como encontrar outro mundo. As
pessoas eram diferentes, não te olhavam de lado por usares calções curtos ou
teres o cabelo rosa. Ali basicamente olhavam-te discretamente, e não por muito
tempo.
Passei por um beco e vi um rapaz a fumar. Abrandei o passo e olhei-o
melhor. Era bonito, ainda que o estivesse a ver de lado. Tinha o cabelo em
crista, não como os foleiros dos punks, mas como um ator de cinema. Na parte da
frente do cabelo tinha uma madeixa loura, e usava brinco na orelha. Estava
vestido com umas calças bege e uma camisola de malha azul escura. Na mão que
segurava o cigarro, havia um relógio de tamanho grande no pulso.
Ainda que não tivesse pensado em agir com segundas intenções,
estava-me a apetecer um cigarro urgentemente. A viagem de avião tinha sido
longa e tinha-me impossibilitado de alimentar o meu agradável vício.
Como eu não era do tipo tímida, avancei para lhe pedir um.
- Desculpa – comecei por dizer.
Ele olhou para mim e eu sorri amavelmente.
- Será que me podias arranjar um cigarro? Estou a precisar
urgentemente de um. – Justifiquei-me. Esperei que ele não fosse do tipo
forreta.
- Claro!
Sacou do maço que se encontrava no bolso de trás das calças e
inclinou na minha direção. Tirei um. Depois fiz um esgar.
- Tens isqueiro também?
O rapaz riu e tirou do mesmo bolso um isqueiro.
- Está a ficar sem lume – disse-me.
Tentei acender o cigarro algumas vezes, até que desisti. Estava sem
gás, até porque o vento soprava na minha direção e não me deixava acender o
cigarro. Baixei-me algumas vezes, fazendo figuras idiotas à frente do rapaz.
Mas eu precisava urgentemente de fumar.
Olhei de novo para ele.
- Dá-me o teu cigarro – pedi.
- Desculpa? – Ele arqueou a sobrancelha.
Revirei os olhos furiosa e aproximei-me dele. Juntei as duas pontas
dos cigarros e puxei umas golfadas. Finalmente.
- E é assim – comecei a dizer – que se acende um cigarro em Portugal.
Não conhecias este truque? – Perguntei.
Ele olhou para mim, provavelmente interrogando-se de onde eu tinha
retirado tanta confiança para ter feito o que fiz. Eu própria não sabia por que
razão tinha sido tão confiante ao ponto de chegar-me a ele e acender o meu
cigarro com a ponta acesa do cigarro dele. Mas a verdade é que estava em
Londres, e tinha uma nova vida pela frente. Eu podia ser quem eu quisesse.
- De certeza que não me estás a reconhecer? – Perguntou.
- Deveria? – Dei um bafo no cigarro.
Ele resfolegou e depois deu uma risada. Apagou o cigarro e virou-se
para uma porta que eu antes não vira.
- Obrigada pelo cigarro – agradeci-lhe antes que ele entrasse no
enorme prédio.
Virou-se de novo, para mim, e sorriu. Está bem, eu admito, o sorriso
dele até que era algo completamente lindo e resplandecente.
E foi-se embora.

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