Fui ter à
cozinha, para me deparar com a mesa central preenchida por uma explosão de
bolos tipicamente portugueses.
- Que é isto? –
Inquiri num tom de voz agudo.
A minha mãe
virou-se, com o pano na mão.
- É para os
vizinhos.
- Tanta coisa?
- Não podemos esquecer
a senhora da loja que nos ajudou a encontrar o dono do gato.
Uma lembrança
repentina de Panda atingiu-me a mente. Como estaria o gatinho? Ele já não ia
ficar connosco, era de Louis.
- Sam vai ficar
tão triste… - comentei.
- Porquê?
Olhei para a minha
mãe, como se fosse óbvio.
- Ele adorou o
gato.
- Ah. Pois foi…
talvez consigamos arranjar algum animal, mais tarde quando já estivermos
habituados a Londres.
Assenti.
Dei as boas
noites à minha mãe, acompanhando um beijinho e subi de novo. Ainda não tinha
olhado bem para o meu quarto como gostaria, mas agora ia ter tempo, e como
ainda não tinha sono, resolvi começar a decorá-lo.
Uma semana
antes de nos mudarmos definitivamente, a minha mãe tinha vindo com alguma
decoração nossa que não nos queríamos ver livres. Claro que ela foi casmurra e
não quis que eu a acompanhasse. Isso fê-la quase perder o avião de regresso a
Portugal.
Agora eu abria
pela primeira vez as caixas que continham todos os meus bens preciosos. As
fotos, os posters, o candeeiro de lava e as luzinhas de Natal azuis que eu
amava. Já não me lembrava do que tinha trazido mais, então resolvi tirar coisa
a coisa e ver onde poderia ficar no quarto.
No geral, eu
estava contra a nossa mudança para Londres. Mas já que tivesse que ser, tinha
então a oportunidade de começar uma nova vida. Mesmo que eu estivesse contra, e
não me importasse de continuar com a miserável vida que tinha em Lisboa, isto
aconteceu. E para além de o aceitar, eu tinha que abraçar isto. Não por mim,
não pela minha mãe. Mas por Sam.
A grande razão
de nos termos mudado para cá, tinha sido ele. Em Lisboa – ou Portugal – ele
simplesmente não se adaptava. Talvez a culpa fosse minha. Eu tinha-o adaptado à
língua inglesa, tinha-lhe ensinado a vida americana, os costumes, a história, e
ele não se adaptara aos portugueses, tanto que, não tinha amigos. A minha mãe
sabia que se ficássemos mais alguns anos em Portugal o meu irmão ia acabar por
ser como eu. Não que ela não tivesse orgulho em mim; eu sabia que tinha orgulho
na pessoa que eu era. Mas a minha mãe tinha um grande medo que o meu irmão
levasse a vida que eu levava.
Nesse instante,
assustei-me com o telemóvel a vibrar-me no bolso. Senti o isqueiro de Zayn, mas
peguei diretamente no telemóvel. Olhei para o visor.
- Fala-se no
diabo… - murmurei e atendi. – Diz, querido.
“Ainda quero o meu isqueiro.”, falou ele.
- Deixa-me
pensar um bocadinho… Not yet. – Sorri para o vazio.
Ouviu-se um
suspiro do outro lado.
“Tu adoras implicar com as pessoas, ou é só
comigo?”
- Por enquanto
só implico contigo, mas se me der na telha implico também com o Harry ou o
Louis. Mas… - fiz uma pausa. – É mais giro implicar contigo.
Trinquei o
lábio.
“Ai que eu me vou meter em sarilhos… que
tenho de fazer para reaver o isqueiro?”
Nisso, já não
tinha pensado muito. O que poderia ele fazer?
- Por enquanto,
quero que me digas qual é o teu problema comigo.
Isso, Bella, sê direta.
Senti uma
tensão do outro lado da linha.
“Como assim, o meu problema?”
Irritei-me
porque ele sabia muito bem do que eu falava.
- Zayn, quando
nos conhecemos, foste super porreiro. Depois, no veterinário estavas todo
casmurro e mal-humorado, como se eu tivesse feito alguma coisa.
Percebi que ele
estava a guiar, então esperei.
“Ah, sim. Está bem, então vou eu buscar-te
amanhã. Não é preciso eles virem? Está bem, está bem.”
Zayn estava a
responder a uma pergunta que eu não tinha feito, mas depois percebi que não
estava sozinho, quando ouvi Louis gritar “O quê? Eu venho contigo!”. E
desligou.
Enervei-me com
aquilo e decidi mandar mensagem.
Já estava quase
para a enviar quando pensei “É melhor não”. Então guardei o telemóvel e
continuei a decorar o meu quarto.

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