Depois de uns bons quinze minutos a escolher a roupa, coloquei-a em
cima da secretária e arrumei o quadro de cortiça junto ao armário, colocando
depois as fotos de volta no dossiê. Afastei as malas para debaixo da cama e
peguei de novo na roupa que já escolhera. Dirigi-me à casa de banho e pousei-a
no tampo da sanita. Depois olhei para a bancada e reparei que me esquecera do
meu creme hidratante e do corretor de olheiras. Deste último, eu precisava com
toda a certeza do mundo. Todos os dias eu tinha olheiras, quer ficasse acordada
a noite inteira, quer dormisse treze horas. E eu com olheiras parecia uma
aberração autêntica. Estava fora de questão alguém ver-me sem ter corrigido as olheiras.
- Mana! – Gritou o meu irmão à porta da casa de banho.
Claro, toda a gente não podia ver sem ser o meu irmão.
- Entra, pirralho.
E claro, eu não tinha problemas em despir-me à frente de Sam; por
vezes até tomávamos banhos juntos.
- A mãe diz para eu tomar banho. – Explicou.
- Agora vou eu – reclamei.
Ficámos a olhar um para o outro, e ele foi expressando um sorriso
maléfico.
- O último a despir-se é um ovo podre! – Gritou e imediatamente
começou a tirar a roupa.
Tentei tirar a minha à velocidade da luz, o mais rápido possível. Eu
não me importava ser ovo podre, mas só não queria que o meu irmão olhasse para
mim e visse que eu não me interessava por brincar com ele. Mas deixei-o ganhar.
- Para a próxima és tu um ovo podre – ameacei-o com carinho. – Vá,
entra lá na banheira, pirralho.
Dei-lhe uma palmada no traseiro para ele entrar e depois entrei eu. Sentámos na banheira e eu abri a água.
Se considerarmos trinta minutos pouco tempo no banho, então estivemos
relativamente a poupar água. No início brincámos com a água, Sam atirava em
mim, eu atirava nele; e depois eu disse “Chega” e passei-lhe o champô.
Quando saímos, fui verificar o telemóvel. Não tinha nenhuma chamada
perdida ou mensagens. Não me admirei.
- Despacha-te que o Zayn vem aí – avisei o meu irmão.
Os olhos dele brilharam.
- A sério? – Perguntou em inglês.
Eu ri baixinho.
- Sim, Booboo, e se queres estar com ele, despacha-te. Se calhar
vamos dar uma volta a Londres e não podemos esperar – menti.
Eu sabia que Zayn ia ficar por cá, mas só queria que o meu irmão
saísse da casa de banho. Depois de fechar a porta atrás dele, arfei e vesti a
lingerie.
Eu tinha escolhido umas calças skinny jeans e uma camisola de lã que
me ficava acima do umbigo. Quando a comprei, o meu objetivo era mesmo esse,
ficar acima do umbigo. Achava o outfit
super querido. A camisola era cinzenta e os jeans pretos. Normalmente a paleta
de cores de toda a minha roupa rondava estes tons escuros e neutros. Houve uma
época em que eu fui totalmente gótica; o preto era a minha segunda pele, e os
acessórios eram correntes, caveiras e cruzes.
Conheci o Nuno assim.
Afastei os fios de cabelo que se colavam à minha cara molhada e
limpei-a com a toalha de corpo. Depois pus em ação o corretor de olheiras.
Ao fim de cinco minutos parecia outra. Já não tinha um ar cansado nem
parecia que alguma vez sofrera de olheiras. Vesti-me rapidamente e terminei
alguns retoques na cara. Relativamente ao cabelo, não me importava que Zayn me
visse com ele molhado.
Arrumei tudo e desci as escadas.
- Quem aí vem? – Perguntou a minha mãe, da sala. Estava a ler um
livro da coleção dela dos policiais da Agatha Christie.
- O Zayn.
- Hum. Tu e esse rapaz…?
Não lhe deixei acabar a frase.
- Oh meu deus, mãe, deves estar a brincar comigo.
Revirei os olhos e dirigi-me à cozinha. Com toda a confusão do sumo,
ainda não tinha comido nada. Estava prestes a dar uma deliciosa e recheada
trinca no meu pão com doce de morango, quando de repente tocam à campainha.
Olhei com agonia para o pão e levantei-me para ir abrir a porta.


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