- Quando
podemos ver o teu vestido? – Perguntou-me ela com um sorriso extremamente
radioso.
No segundo a
seguir, Laura dava ideia de que ainda estava por acabar alguns pormenores.
- É o tempo de
irem lanchar, meninas. Não demora nem um quarto de hora – disse a minha mãe,
apressando-se a ir ao cubículo da zona de costura.
Cheguei à
cozinha e retirei do frigorífico os pastéis de nata, caseiros. Coloquei em cima
da mesa, voltando-me de novo para a bancada, tirando dois copos do armário.
- Que é isto? –
Inquiriu Marie, apontando para os pastéis.
- Nunca
provaste?
Ela abanou a
cabeça e eu dei uma gargalhada.
- São
tipicamente portugueses. E português que é português aprecia sempre um bom
pastel de nata. – Expliquei, tirando um da caixa e colocando à frente dela.
Recuou um
pouco, recetiva a provar. Revirei os olhos.
- Marie são
ótimos, vais adorar.
Ela lançou-me
um olhar curioso. Depois pegou no pastel e colocou-o por baixo do nariz,
farejando. Ri um pouco mais. Deu uma trinca, e dois segundos depois, um sorriso
formou-se no seu rosto.
No final,
acabou por comer mais dois, acompanhados de um copo de leite. Marie esteve a
contar-me que conhecia Niall desde os seus quinze anos, mas que não deu tempo
de se aproximar dele tanto quanto gostava porque este também não lhe dava
hipótese.
- Quando o vi
pela primeira vez, soube logo que ele não era igual aos outros – segredou-me. –
Fiz de tudo para travar uma amizade com ele, e não me arrependo de nada.
Afinal, - as suas maçãs do rosto estavam vermelhas – cada vez estou mais
próxima do seu coração.
- Não sabia que
eras romântica – confessei, trincando o lábio.
Ela estalou a
língua e ajeitou o cabelo, mesmo não precisando de o fazer.
- Tenho a noção
que se nota à distância que estou completamente apaixonada pelo Nialler. Quando
se apanha o bichinho do amor, é melhor estar-se preparado para parecer um idiota
in love.
Marie ainda
conseguiu dizer-me que tinha medo de não ser correspondida; mas se Niall não sentia
por ela o mesmo que ela sentia por ele, recusar-se-ia a chorar por esse amor
perdido.
A minha mãe
veio ter connosco à cozinha, em passo apressado e empolgada demais para o
esconder. Rasgou o rosto com um sorriso, olhando bem para mim.
- Está pronto.
– Anunciou, e aí, foi o momento em que comecei a sentir o nervosismo.
Dirigimo-nos à
zona de costura. Marie ia à frente, e quando olhou na direção do manequim,
susteve a respiração sonoramente. Marie não pronunciou nenhuma palavra, e o
espanto no seu rosto assolou-me. Quando cheguei ao pé dela, e olhei para a
túnica no manequim, percebi porque tinha ficado sem palavras.
Aproximei-me da
túnica extraordinariamente sublime. Toquei no tecido, enquanto percorria com o
olhar o enorme decote em V até ao seu fim, na zona do umbigo. Às alças, a minha
mãe conseguiu fazer uma excecional trança de cada lado. À medida que ia olhando
para o vestido em todas as diferentes componentes, descobri outro decote em V
atrás. Curiosamente, a túnica relembrava-me as jardineiras que na infância
conseguia vestir todos os dias.
- Está lindo –
murmurei.
- A senhora
Ferreira devia reconsiderar a hipótese de ser estilista – comentou Marie.
Lembrei-me das
joias que Louis me tinha dado, e corri até ao quarto, para as ir buscar. Quando
voltei, mostrei-as a Laura.
- Consegues
coloca-las na túnica? – Perguntei, esperando ouvir um sim.
A minha mãe
apenas sorriu e pegou nos broches. Em silêncio, Marie e eu esperámos. As joias
acabaram por ficar nas alças entrelaçadas, fazendo-as passar por despercebidas.
- Estou ansiosa
pelo dia de amanhã – disse Marie à porta de minha casa, por volta das oito
horas da noite. Preparava-se para ir embora.
- Ainda estou
para descobrir quem serás e que deus interpretará Niall – dei uma risada.
Depois lembrei-me que pouco ou nada sabia sobre a mitologia grega. Levei a mão
à testa. – Santo Deus, esqueci-me de fazer os trabalhos de casa!
Marie arqueou
uma sobrancelha e eu expliquei-lhe o que queria dizer.
- Ainda tens
tempo, mas aconselho a pesquisares sucintamente todas as lendas em que Afrodite
está envolvida. O mais certo será que os convidados, para além dos rapazes,
meter-se-ão contigo e te farão diversas perguntas sobre a deusa. – Abanou
afirmativamente com a cabeça. – A primeira vez a que fui a este evento, estava
pouco preparada, não sabia muito bem quem era Andrómeda. – Marie fechou os
olhos, como que lamentando o sucedido. – Só não apanhei uma vergonha maior, porque
ninguém me reconheceu.
Depois
suspirou, andou até ao carro e não me deu hipótese de me despedir. Mas antes de
ir embora, abriu a janela do carro e gritou:
- Não te
esqueças, Bella, faz os trabalhos de casa!
Deu uma
gargalhada bem sonora, e retirou-se.

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