- Papá…
- Sim?
Olhei para a areia.
- Porque me castigaste daquela maneira sempre que eu fazia alguma
coisa de mal?
O meu pai não me respondeu logo, o que me permitiu ouvir o som das
ondas mais distintamente.
- Sabes Isabela, no lugar onde eu estou é que percebemos todos os
erros que fizemos na vida que nos foi dada. Eu pensava, muito sinceramente, que
fazia bem ao castigar-te assim. Mais tu que ninguém sabes bem o quanto o teu
pai era um cristão dedicado. Um cristão à moda antiga. Ou talvez o tipo de
cristão que nunca existiu.
Assenti, percebendo o que ele queria dizer.
- Estás arrependido? – Perguntei, esperando que ele dissesse que sim.
- Ainda não fizeste nenhuma das perguntas corretas, e no entanto eu
já te respondi a uma. E não estou permitido a fazê-lo, Isabela.
- Oh – intercetei. – Hum, será que uma das perguntas é… - pensei
durante um segundo – O que vai acontecer entre mim e os rapazes?
O meu pai desmanchou-se em gargalhadas.
- Estás perto, mas essa também não é uma das perguntas. Pensa um
bocadinho, Isabela. Tu chegas lá.
Talvez sim, talvez não. A verdade é que toda esta coisa do contacto
com o outro lado era muito esquisita e estranha. A parte das perguntas certas e
das perguntas que não eram certas era lixada. Quais eram as dúvidas que eu
tinha? Não podiam ser perguntas de resposta direta, porque isso era mais que
óbvio.
Depois de refletir durante o que pareceu uma eternidade, percebi qual
a pergunta que eu queria fazer.
- Irei fazer a escolha certa, papá?
- Se seguires o teu coração, filha.
- Mas eu não sei o que o meu coração quer – admiti.
- Neste momento estás confusa, Isabela. Porque sentes o mesmo por
dois rapazes ao mesmo tempo. Mas lembras-te como foi com Nuno?
- Lembro sim, mas o que tem a ver o Nuno com o Zayn e o Louis?
- Eles não têm nada a ver com o Nuno. O que eu quero dizer é que ao
fim de dois anos já não sentias amor pelo Nuno, mas sim obsessão e cegueira.
Vais dizer que é mentira?
Rangi os dentes.
- O assunto Nuno está mais que enterrado, pai.
- Percebo.
Continuámos a caminhar à beira-mar, até que encontrámos um broche no
meio do chão. Quando peguei nele, reconheci-o.
- Louis – murmurei, sorrindo.
- Irás encontrar as respostas, Isabela.
- Porque dizes isso dessa maneira, papá? – Perguntei, virando-me para
ele.
Vi-o afastar-se.
- Não vás ainda! – Gritei.
- O meu tempo chegou, querida. E o teu também.
Dito isto, desapareceu, levando tudo com ele; a ponte 25 de Abril
descampou, o céu tornou-se completamente preto e eu deixei de ouvir as ondas do
mar e de sentir a areia. Estava a cair.
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