Antes de
chegarmos ao núcleo da tenda – que parecia nunca mais acabar – caminhámos lado
a lado por um corredor até chegarmos a outro homem trajado tal e qual um
imperador.
- Sóis
bem-vindas. – Saudou-nos com uma salva. A sua voz era grossa e poética. Ele
próprio parecia um filósofo antigo. – Quem recebo, tão agradavelmente, em meus
aposentos?
Trinquei o
lábio, endireitando as costas.
- Afrodite, eu
própria, e Helena de Troia – falei, o mais subtilmente possível.
- Têm os
convites, senhoras? – Perguntou, tossindo discretamente.
Marie sorriu e
entregou-os à mão do senhor.
O homem sorriu
ligeiramente, fez outra vénia e desapareceu por entre as cortinas da tenda. De
início assustei-me, tentando saber como tinha ele desaparecido, mas ao olhar
para Marie, e ver o seu olhar de quem diz “Não te preocupes”, esperei e pouco
depois ele voltou. Com duas máscaras na mão.
- Aqui tem,
menina Helena – disse o senhor, entregando a máscara cor de avelã a Marie. –
Aqui tem, deusa Afrodite – falou para mim, fazendo mais uma vez a mesma
cortesia e cedendo-me a máscara mais bonita que eu alguma vez vira.
Peguei nela; era
revestida a um material dourado que eu não soube dizer ao certo o que era. Nas
pontas superiores, a máscara distendia-se a duas finas pontas resistentes.
Envolta das aberturas para os olhos, era possível ver vários brilhantes que se
refletiam na luz. Virei-a, vendo em cada lado dois aderentes parecidos ao
material do nu bra. Coloquei a
máscara, sentindo os aderentes pegarem-se à minha pele.
- Mesmo com a
máscara posta, a sua beleza é irrefutável, minha deusa – elogiou-me.
Olhei para ele e
sorri.
- Diga-me o seu
nome, homem – pedi, estranhando o modo como o tinha feito.
- Homero, minha
senhora.
Eu conhecia
aquele nome. Aquele grande nome da literatura grega.
- Já te estou a
reconhecer, Homero – respondi com uma pequena vénia. - Tens feito um bom
trabalho com a Odisseia e a Ilíada, mortal.
Depois de
retribuirmos com uma vénia a hospitalidade recebida por Homero, Helena e eu passámos por umas cortinas
diferentes das de onde Homero tinha ido buscar as nossas máscaras. Tais cortinas
que nos transportavam então para mil e quinhentos anos antes do nascimento de
Jesus Cristo. Entrei o mais requintadamente possível, puxando a atenção de
todos os presentes para mim e Marie.
No núcleo da
tenda, o pleno Olimpo estava presente. Mesmo no centro do espaço estava uma
fogueira larga de chamas vermelhas e enormes que aqueciam toda aquela extensão.
Do lado esquerdo estava uma fonte redonda de onde brotava água das bocas de
dois pequenos Cupidos. No meio deles, estava uma mulher-estátua que tocava
harpa. Do meu lado direito, estava uma mesa composta por diversos cálices
cheios de vinho. De resto, as decorações eram simplesmente indescritíveis.
Olhei para todos
os presentes, não reconhecendo de imediato ninguém. Isto é, não consegui
identificar qual deus ou semideus estavam a representar. Quando dei por ela,
Marie desaparecera do meu encalço; mas não perdi a postura. Apesar de me
encontrar aterrorizada, por ser a primeira vez, confortou-me saber que os
rapazes estavam algures por ali.
Mentalizei-me de
que era Afrodite, e que esta não era insegurança nem tinha medo do quer que
fosse. Afrodite enfrentava os desafios que lhe eram propostos e sabia como
superá-los sem qualquer esforço. Eu tinha
que ser assim naquele lugar.
Aproximei-me da
fogueira, levando a mão ao mais perto possível que pude das chamas.
- Não se queime,
minha senhora – disse alguém, alguém com uma voz masculina, forte e, no
entanto, doce.

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