Ninguém diria
que uma pessoa como Elizabeth Joyce tinha tanto jeito para fazer penteados
quanto os cabeleireiros profissionais. A tia de Marie não tinha nenhuma
especialização como cabeleireira, nem sequer o liceu tinha acabado. Contado
ninguém acreditaria, mas se vissem o penteado que Elizabeth fazia à sobrinha,
espantar-se-iam tanto quanto eu.
- Gostas? –
Perguntou-me Marie, assim que a tia se afastou e anunciou, “Acabei” com um
sorriso satisfeito.
Suspirei,
lançando um último olhar para o seu cabelo. Duas tranças pendiam sobre as
têmporas do rosto, enquanto o resto do cabelo estava apanhado num coque feito
de tranças. À primeira vista parecia apenas elegante, mas se víssemos com mais
atenção, iríamos reparar nas partículas brilhantes que banhavam o cabelo louro
de Marie.
Rasguei o rosto
com um sorriso de orelha a orelha.
- Estás linda –
afirmei.
Ela corou,
revirando os olhos. Levantou-se da cadeira, enquanto se mirava no espelho.
- Espero que
ele goste – murmurou. Não sei dizer ao certo se a tia Elizabeth conseguiu ouvir
ou não. Marie abraçou a tia. – Obrigada Beth.
Joyce
resfolegou.
- Ora, é sempre
um prazer ajudar a minha sobrinha favorita.
Marie deu uma
risadinha.
- Sou a única
sobrinha que tens – respondeu.
Elizabeth Joyce
virou-se para mim.
- Agora é a tua
vez, jovem.
Suspirei,
sentando-me na cadeira. Encontrei o meu olhar no espelho. A tia de Marie
colocou as mãos na cintura.
- E quem vais
tu ser? – Perguntou.
Antes que eu
pudesse falar, Marie adiantou-se.
- Vai ser
Afrodite – respondeu, entusiástica.
Elizabeth
virou-se para ela.
- Jesus Cristo,
e como é que queres que eu saiba quem é essa Afrodita?
- Afrodite –
corrigiu Marie, rindo baixinho. – É a deusa do Amor, mais comummente conhecida
como a mais linda deusa de todo o Olimpo.
Senti-me
intimidar quando ela afirmou isso. Eu tinha realmente um grande cargo nas
costas ao interpretar a deusa do Amor. Algures no Universo, espero que ela
esteja orgulhosa com quem a irá representar.
- Hum… -
exclamou Elizabeth.
Avaliou o meu
cabelo, andando para a direita e para a minha esquerda incessantemente. Largou
o pente que tinha na mão e agarrou no meu cabelo, verificando o corte, o
comprimento e a espessura.
- Já sei –
anunciou. – Levanta-te, Bella.
Fiz o que me
mandou, vendo-a virar a cadeira para a banheira.
- Não vou poder
ver? – Perguntei.
Elizabeth
sorriu.
- Confia em
mim.
Assenti,
voltando a sentar-me na cadeira. Fechei os olhos.
Enquanto Elizabeth
Joyce fazia o penteado que, em vão, tentei imaginar como iria ficar,
concentrei-me em tentar conjeturar o espaço onde iria decorrer a festa. Marie
não me dizia onde iria ser, e eu não sabia se o fazia por diversão ou
simplesmente porque pensava que não valia a pena. De tudo o que eu já sabia
sobre a mitologia e a cultura grega, sabia que eles eram bastante requintados e
o quer que acontecesse naquele tempo (e neste), continha uma certa mística
envolta da religião adormecida.
Não sei porquê,
mas supus que iria com certeza haver uma fonte. Elas eram bastante usuais nas
cidades antigas, mais exatamente na Pólis ou no centro do mercado. Porém,
sempre que tentava imaginar o local da festa, aparecia sempre na minha mente
uma imagem idealizada do Olimpo.
- Ela
adormeceu? – Ouvi Elizabeth perguntar, parando de arranjar o penteado.
- Ainda estou
acordada – respondi, dando uma gargalhada. – Está pronto?
- Achas,
rapariga?! – A voz de Elizabeth soou-me a um certo choque. – Isto requer tempo.
Suspirei,
pensando noutra coisa.
Louis. A imagem
da sua pessoa apareceu-me na memória, no entanto, estava desfocada, como se eu
não o conseguisse ver tão nitidamente quanto se ele estivesse à minha frente.
Recordei o momento do primeiro beijo.

Sem comentários:
Enviar um comentário