Halloween
chegou. As bruxas iam voar nas suas vassouras. Os lobisomens iam uivar bem
alto. E eu andava completamente perdida a tentar encontrar as minhas cábulas.
- De que andas
à procura? – Perguntou Marie, assim que entrou no meu quarto e me viu feita
louca à procura dos pequenos papéis.
- Não te
esperava tão cedo – confessei, após olhá-la de relance e voltar toda a minha
atenção para a secretária. – Não me vinhas buscar só às quatro da tarde?
- São quatro da
tarde, Bella. – Deu uma risadinha. – Mas não encontras o quê?
Resmunguei,
furiosa. Durante toda a manhã preenchi pequeninos papéis com os nomes de todos
os deuses e os respetivos poderes. Planeava enfiá-los dentro do nu bra e de vez em quando lê-los para
(por exemplo) não parecer uma idiota à frente de Calipso por não saber quem foi
o azarado que ela prendeu na sua ilha.
E não te recordas ainda, Bella!, Suspirei.
Marie riu-se
foneticamente quando lhe expliquei o que procurava.
- És mesmo
tonta – comentou. – Não te preocupes, minha cara amiga. O mais provável será
que se irão todos gabar das suas
histórias.
Fechei os
olhos, contando até dez.
- É só que…
pode não parecer, mas eu costumo dar o tudo ou nada na maior parte dos planos
que faço. Não me sinto preparada para fazer de Afrodite. Talvez tenha sido uma
má escolha.
Ela revirou os
olhos, bateu com o pé no chão e cruzou os braços.
- Não digas
parvoíces, Isabela! Por alguma razão é que eu te aconselhei a ser essa deusa,
não achas?
Suspirei,
mostrando uma cara triste.
Marie
aproximou-se de mim e estendeu os braços, dando-me um abraço. Apertou-me
ligeiramente e depois afastou-se, para me mostrar um sorriso pequeno. Com o
dedo indicador, levantou-me o queixo.
- Empina esse
nariz pequenino e mostra que és mesmo Afrodite. Aliás, a pessoa certa para a
ajudar és tu. Nos filmes e nos livros ela sempre teve fama de ser antipática e
má para os mortais. – Marie sorriu enviesadamente, deitou a língua fora, mas
apressou-se a admitir um ar sério. – Acredita que os rapazes, sem nenhuma
exceção, estão todos ansiosos por saber quem serás.
Senti-me corar
e trinquei o lábio.
- A sério?
Marie acenou
com a cabeça.
- Acho que
sentem um carinho especial por ti.
- Não entendo mesmo
porquê – admiti.
- Tens que
começar a dar-te mais valor, Bella.
Respirei fundo
e bati palmas.
- Vamos embora
que já se faz tarde.
Marie ajudou a
minha mãe a colocar a túnica dentro do cabide de fatos, enquanto eu acabava de
enfiar dentro da mala as coisas que necessitava para utilizar durante a festa.
Abençoei Nuno por me ter comprado umas sandálias gregas na sua viagem à Grécia,
dois verões atrás. Eram perfeitas para este baile, e faziam combinação com a
coroa física que Zayn me oferecera.
Olhei para ela,
a grinalda, e não contive um sorriso. Subitamente, os nervos assolaram-me,
porque ele iria reconhecer-me, mesmo com a máscara que nos iriam dar à entrada.
- Bella,
despacha-te! – Gritou Marie.
Dei um salto e
atrapalhadamente coloquei os nu bra e
as sandálias dentro da mala. Levei a coroa na mão.
Assim que
cheguei à entrada, Laura passou-me o cabide à mão e deu-me um beijo no rosto.
- Diverte-te –
disse.
Em poucos
minutos, Marie e eu arrumámos tudo no carro e estaríamos já a caminho de sua
casa, não fosse Sam correr até ao carro enquanto gritava por mim.
Agarrei-o ao
colo.
- Tentei
encontrar-te, pirralho. Onde andavas? – Perguntei, afagando-lhe os caracóis.
Sam olhou em
volta enquanto sorria. Depois fixou o olhar em mim, olhando-me muito seriamente.
- Descobri uma
coisa – revelou-me.
- Ah sim?
Queres contar à mana?
Ele acenou que
sim e esboçou um sorriso fechado. Depois cruzou os dedos em X à frente da boca,
como eu lhe ensinara a fazer sempre que não podíamos contar alguma coisa a
outra pessoa.
- Está bem –
murmurei.
Sam encostou o
rosto no meu e sussurrou ao meu ouvido:
- O Nouis gosta
de ti.
- Porque dizes
isso?
- A mamã disse
que quando as pessoas dão beijinho na boca, é porque gostam da outra. Então o
Nouis gosta de ti, mana.
Uma coisa que
achei imensa graça foi a maneira como a minha mãe explicou a Sam o sentido do
gostar de alguém mais como amigo ou irmão. Porque apesar de eu amar o meu irmão
e ele amar-me a mim, o gostar que eu
sentia por Louis e este por mim era completamente diferente do que eu partilhava
com Sam. Pois o meu irmão e eu dávamos beijinhos na boca como uma forma de mostrar
afeto. E, nesse aspeto, já desde os doze meses que está habituado a receber os
meus beijinhos.
Abracei-o com
força antes de o largar no chão.
- Vais-me
prometer que esse será o nosso segredo, está bem? – Pedi, levantando o dedo
mindinho.
Sam olhou para
o dedo, levantou o dele e cruzou-o com o meu.
- Está bem, Cookie.
Sorriu-me
e depois voltou, a correr, para casa.

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