- Papá?
O silêncio respondeu.
– Papá, és tu? – Perguntei de novo.
Uma luz aproximava-se cada vez mais de mim, apagando com toda a
escuridão à minha frente. Quando ficou tudo branco, quase a ofuscar-me os
olhos, o branco passou a vermelho um tanto fraco. Depois uma praia apareceu, e
por baixo dos meus pés senti a areia húmida, o que também acabou por me relevar
que eu apenas vestia uma bata branca de hospital.
O som das ondas a engolir e a devolver sucessivamente a areia
reconfortava-me, lembrando-me a Costa da Caparica. No entanto, ao longe eu
conseguia ver a ponte 25 de Abril, portanto eu não estava na Costa da Caparica,
mas sim em Belém. Só que… onde estava a Torre? Não estava. Atrás de mim apenas
se encontrava o vazio.
Sentia-me tão contente por voltar a Portugal, tão contente por voltar
a sentir a areia e o mar que me esqueci que estava num sonho. A sensação da
água morna parecia-me tão real que não resisti a despir a bata e dar um
mergulho. A felicidade era igualmente grande e deixei-me cantar o bom fado
português.
- Bella – chamou uma voz vinda do céu. Ouviu-se ali, tão nitidamente,
tão alto que me assustei e saí depressa da água. Vesti a bata, encharcando-a. –
Bella – chamou outra vez a voz.
- Papá? – Gritei.
Olhei para a ponte, tentando perceber se era dali que vinha aquela
voz. Mas olhei para o lado, vendo o branco aparecer de novo. E a sair dele,
vinha uma figura masculina toda preta que me meteu medo.
- Vá-se embora, afaste-se de mim! – Falei. – Papá! – Gritei outra
vez.
A figura humana preta acabou por se revelar ser o meu pai, que à
medida que se aproximava, o seu semblante mostrava estar vestido com um fato
branco imaculado. Ele exibia um sorriso cansado.
- Papá! – Saudei-o, correndo até ele e dando-lhe um abraço forte.
- Minha pequena Bella – disse ele, com a sua voz rouca. – Quer dizer,
já não és pequena, estás uma mulher.
Riu-se guturalmente.
A morte do meu pai foi muito estranha. Ainda hoje não descobriram
como tinha ele morrido; não sabem se foi assassinado, se se suicidou ou se
apenas foi morte natural. Nem mesmo à minha mãe conseguiram dar uma ideia
concreta do que lhe tinha acontecido.
- Papá – chamei, afastando-me dele. – Como é que morreste?
O meu pai esbugalhou os olhos e sorriu.
- Calma pequena. Ainda não é essa a pergunta que queres fazer. Porque
me chamaste?
Suspirei.
- Sinceramente, não te sei dizer. Acho que foi um instinto. Estou
morta?
Ele riu de novo.
- Isabela, tens que ter calma. Temos tempo. Primeiro conta-me como
vão as coisas em Londres com a mãe e o mano.
Enquanto o meu pai acompanhava-me o passo à beira-mar, refleti no que
lhe ia dizer.
- Para ser sincera, está tudo às avessas. Acreditas que gosto de dois
rapazes ao mesmo tempo? E que eles também gostam de mim?
- Não queres dizer “amar”?
Revirei os olhos, batendo com o pé na areia.
- Se já sabes o que se passa porque te dás ao trabalho de me
perguntar? – Ri nervosamente.
- Sou um espectador de fora. Não sei realmente o que se passa. Não te
esqueças do que eu uma vez te disse.
- Nem tudo o que parece é – dissemos os dois ao mesmo tempo.
Olhei para o meu pai, notando que ele estava exatamente igual como na
última que o vi vivo. Ele olhou para mim e sorriu. Lembrei-me de tudo o que ele
me fizera passar, mas nesse momento não senti rancor nenhuma. Apenas pena.
Estálindo :) Estou mesmo a adorar :O Bjinhos
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