Mais uma vez,
tentei imaginar como seria o encontro.
Não tive sucesso, como seria de esperar; sempre que tentava dar continuidade à
imagem parada no vazio da minha consciência, algum som ou movimento
distraía-me, fazendo repetir outra e outra vez a imagem de Louis – como Ares –
dar-me a mão para uma dança grega.
De repente, o
carro parou de vez.
- Chegámos? –
Perguntei, continuando de cabeça cabisbaixa e o olhar travado pelas pálpebras.
Marie deu uma
risadinha.
- Sim, Bella.
Uma súbita
vontade de sair do carro conquistou-me, aniquilando qualquer vestígio de
soneira que eu começava a sentir. Ao olhar a meu redor, reconheci de imediato a
mansão Harlaxton Manor.
- Meu Deus –
murmurei, vislumbrando a grandeza daquela estância.
Saí do carro e
mirei a mansão, enquanto esperava por Marie.
- Esqueceste-te
de uma coisa – disse ela.
Virei-me para
trás, colocando logo o olhar numa coisa dourada que ela tinha entre mãos. Era a
minha grinalda. Marie rasgou o rosto com um sorriso radiante e aproximou-se,
levantando as mãos para me colocar a coroa. Não precisei de baixar a cabeça,
porque eu já era pequena demais ao seu lado.
Depois caminhei
alguns passos, entrando na herdade; uma grande tenda branca encontrava-se logo
à minha frente, e suspeitei o porquê de haver dois homens armados como zelas a
guardar a entrada da tenda. Continuei a andar na direção deles, mas uma mão
puxou-me o braço. Era Marie.
- Ainda não te
expliquei uma coisa – revelou-me, puxando toda a minha atenção. – A partir do
momento em que entras, não podes ser a Bella, e de modo algum, poderás revelar
quem és. Naquela tenda, és Afrodite, a deusa do Amor.
A profundidade
saída da voz de Marie assustou-me. Já me sentia com grandes responsabilidades
ao interpretar a deusa, e agora ainda mais, que Marie acentuou o meu dever. Ela
avisara-me que ninguém iria saber quem somos devido às máscaras que usaríamos.
No entanto, eu pensava poder falar com os rapazes como Bella, e não como
Afrodite.
- Finge que não
conheces os rapazes – pediu-me ela, enquanto íamos lentamente aproximando-nos
dos guardas. – O Louis sabe quem serás, mas não deixes, em qualquer altura, que
ele diga o teu nome.
- Há uma coisa
que eu preciso de saber, Marie – sussurrei.
Estávamos a
poucos metros dos guardas gregos. Ela
parou e eu também.
- Quem será
Hefesto?
Marie arqueou
uma sobrancelha, questionando-se também da minha demanda. Ela podia não saber,
mas aterrorizava-me a ideia de poder haver um estranho que seria meu marido
emprestado. Então, ela disse o que eu mais temia.
- Teremos que descobrir,
porque nenhum dos rapazes será Hefesto.
Sorriu
timidamente e pegou-me na mão, puxando-me.
Parámos em
frente aos guardas, que num ápice estenderam o braço para dentro, formando um X
com as suas lanças.
- Helena de
Troia, presente. Afrodite, filha de Zeus e Díone, presente – anunciou Marie
numa voz límpida e forte.
- Mortais não
são permitidos – disseram os guardas em uníssono e sem um único movimento do
corpo.
A certa altura
pensei que não iriam mesmo deixar entrar Marie, mas esta respirou fundo e voltou
a falar.
- De acordo com
o Decreto-lei nº1685, artigo 4/300, os mortais que, ao longo da história da
Antiguidade foram requerendo tanta ou mais notoriedade que um ou mais tanto
semideuses como deuses, estão consentidos a entrar em qualquer reunião celestial.
Durante alguns
segundos o silêncio permaneceu no ar e nenhum dos vigias se movimentou. Porém,
os seus braços recuaram, desfazendo o impedimento em forma de X à nossa frente.
Olhei para Marie e esta retribuiu o olhar, oferecendo um sorriso doce.
- Primeiro a
deusa.
Fez-me uma vénia
e abriu os braços em forma de gratidão. Corei ligeiramente. Aí soube que era
altura de esquecer a Bella que eu era e transformar-me na Afrodite que eu nunca
fora.
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