quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

New Begginning - Capítulo 84



Mais uma vez, tentei imaginar como seria o encontro. Não tive sucesso, como seria de esperar; sempre que tentava dar continuidade à imagem parada no vazio da minha consciência, algum som ou movimento distraía-me, fazendo repetir outra e outra vez a imagem de Louis – como Ares – dar-me a mão para uma dança grega.
De repente, o carro parou de vez.
- Chegámos? – Perguntei, continuando de cabeça cabisbaixa e o olhar travado pelas pálpebras.
Marie deu uma risadinha.
- Sim, Bella.
Uma súbita vontade de sair do carro conquistou-me, aniquilando qualquer vestígio de soneira que eu começava a sentir. Ao olhar a meu redor, reconheci de imediato a mansão Harlaxton Manor.
- Meu Deus – murmurei, vislumbrando a grandeza daquela estância.
Saí do carro e mirei a mansão, enquanto esperava por Marie.
- Esqueceste-te de uma coisa – disse ela.
Virei-me para trás, colocando logo o olhar numa coisa dourada que ela tinha entre mãos. Era a minha grinalda. Marie rasgou o rosto com um sorriso radiante e aproximou-se, levantando as mãos para me colocar a coroa. Não precisei de baixar a cabeça, porque eu já era pequena demais ao seu lado.
Depois caminhei alguns passos, entrando na herdade; uma grande tenda branca encontrava-se logo à minha frente, e suspeitei o porquê de haver dois homens armados como zelas a guardar a entrada da tenda. Continuei a andar na direção deles, mas uma mão puxou-me o braço. Era Marie.
- Ainda não te expliquei uma coisa – revelou-me, puxando toda a minha atenção. – A partir do momento em que entras, não podes ser a Bella, e de modo algum, poderás revelar quem és. Naquela tenda, és Afrodite, a deusa do Amor.
A profundidade saída da voz de Marie assustou-me. Já me sentia com grandes responsabilidades ao interpretar a deusa, e agora ainda mais, que Marie acentuou o meu dever. Ela avisara-me que ninguém iria saber quem somos devido às máscaras que usaríamos. No entanto, eu pensava poder falar com os rapazes como Bella, e não como Afrodite.
- Finge que não conheces os rapazes – pediu-me ela, enquanto íamos lentamente aproximando-nos dos guardas. – O Louis sabe quem serás, mas não deixes, em qualquer altura, que ele diga o teu nome.
- Há uma coisa que eu preciso de saber, Marie – sussurrei.
Estávamos a poucos metros dos guardas gregos. Ela parou e eu também.
- Quem será Hefesto?
Marie arqueou uma sobrancelha, questionando-se também da minha demanda. Ela podia não saber, mas aterrorizava-me a ideia de poder haver um estranho que seria meu marido emprestado. Então, ela disse o que eu mais temia.
- Teremos que descobrir, porque nenhum dos rapazes será Hefesto.
Sorriu timidamente e pegou-me na mão, puxando-me.
Parámos em frente aos guardas, que num ápice estenderam o braço para dentro, formando um X com as suas lanças.
- Helena de Troia, presente. Afrodite, filha de Zeus e Díone, presente – anunciou Marie numa voz límpida e forte.
- Mortais não são permitidos – disseram os guardas em uníssono e sem um único movimento do corpo.
A certa altura pensei que não iriam mesmo deixar entrar Marie, mas esta respirou fundo e voltou a falar.
- De acordo com o Decreto-lei nº1685, artigo 4/300, os mortais que, ao longo da história da Antiguidade foram requerendo tanta ou mais notoriedade que um ou mais tanto semideuses como deuses, estão consentidos a entrar em qualquer reunião celestial.
Durante alguns segundos o silêncio permaneceu no ar e nenhum dos vigias se movimentou. Porém, os seus braços recuaram, desfazendo o impedimento em forma de X à nossa frente. Olhei para Marie e esta retribuiu o olhar, oferecendo um sorriso doce.
- Primeiro a deusa.
Fez-me uma vénia e abriu os braços em forma de gratidão. Corei ligeiramente. Aí soube que era altura de esquecer a Bella que eu era e transformar-me na Afrodite que eu nunca fora.

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