sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

New Begginning - Capítulo 87


Pisquei o olho. Louis ficou furioso, mas não deixou de se rir por eu levar a sério toda aquela brincadeira.
A tenda era enorme e havia muitos deuses com quem eu ainda não tivera a coragem de dialogar. Lá no fundo, eu sentia receio de tomar a iniciativa. Foram tantos anos sem qualquer tipo de amizade que se tornava difícil dizer “Olá, eu sou a Bella”.
Porém, eu sabia que a situação era diferente. Eu sabia que não se tratava de mim. Eu sabia que não se tratava de travar uma amizade.
Voltei a percorrer a fogueira, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio e encontrei Perséfone, a única deusa vestida de preto. Olhei para ela, inchando o peito e empinando o nariz. Aproximei-me, mostrando um sorriso implacável, mas amistoso ao mesmo tempo.
- Perséfone – cumprimentei.
- Afrodite – retribuiu ela na sua voz de rainha cruel.
A sua túnica preta não transmitia qualquer fulgor ou luxo; apenas algo mortiço. Os broches que prendiam as suas alças eram dourados e destacavam-se em toda a indumentária. O seu cabelo, ruivo flamejante encontrava-se solto.
- Veio sozinha? – Perguntei, metendo conversa.
Perséfone deu uma gargalhada gutural.
- A menina acredita que o seu tio me deixaria vir sozinha?
- Talvez ele estivesse bem-disposto – argumentei, lembrando-me do quão obcecado era Hades por Perséfone nas lendas.
- É raro acontecer, tenho que confessar.
- Então onde está ele? – Procurei saber.
Perséfone sorriu e levantou um dedo, para apontar na direção oposta à minha. Virei o rosto e observei um grupo de deuses a conversar amigavelmente. Um deles, também vestido de preto, encontrava-se de costas para nós. Voltei a olhá-la de frente.
- E como estão as coisas lá em baixo?
Ela revirou os olhos enquanto suspirava.
- Um tédio, minha querida. Por vezes divirto-me a julgar os mortos e a brincar com o Cérbero, mas não é nada que me consiga levantar os ânimos. – Olhou para todos os lados, a ver se ninguém ouvia a nossa conversa. – Se bem que uma vez ou outra recebo visitas esporádicas. Deves entender-me, houve a nossa pequena disputa por Adónis.
Percebi o que Perséfone queria dizer, corando ligeiramente.
- Claro que percebo. Provavelmente já ouviste falar também de quando Hefesto me apanhou na cama com Ares.
- Quem apanhou quem na cama? – Alguém perguntou.
Virei a cara, reconhecendo de imediato os caracóis rebeldes e o sorriso maroto.
- Sejais bem-vindo, Ha… – por momentos esqueci-me do aviso de Marie em relação a não dizermos os nossos nomes, quase dizendo acidentalmente o dele.
Ele lamentou o meu quase acidente.
- A minha própria filha já nem me reconhece. Admitirias isto, Perséfone? – Perguntou à ruiva.
- Possivelmente não, Zeus. Mas erros acontecem.
Dito isto, fez uma vénia e retirou-se para junto do seu marido.
Harry abriu os braços à minha frente e deu uma voltinha, mostrando a sua majestosa túnica. A sua máscara prateada dava-lhe um ar bastante mais velho.
- Quem te viu e quem te vê – murmurei, dando uma gargalhada.
- Não finjas que não adoras o que vês – provocou.
- O paizinho tem que se controlar mais. Não se esqueça que a mamã grande não gosta disso – insinuei.
Harry olhou para todo o lado e aproximou-se de mim.
- Se queres que te diga, acho que a Hera não vai aparecer. Ainda não a vi – disse com um entusiasmo prestes a despoletar.
Ri baixinho, abanando a cabeça em desaprovação.
- Zeus, onde estão os seus irmãos? – Perguntei. Eu sabia que ele perceberia de quem eu falava.
Harry sorriu perversamente.
- Isso terá Afrodite que descobrir.
Não fez nenhuma vénia e afastou-se para falar com outro deus que eu não reconheci ser qual. Suspirei pesarosamente e observei toda a gente que tanto me pareciam ou demasiado próximos ou demasiado afastados.

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