Pisquei o olho.
Louis ficou furioso, mas não deixou de se rir por eu levar a sério toda aquela
brincadeira.
A tenda era
enorme e havia muitos deuses com quem eu ainda não tivera a coragem de
dialogar. Lá no fundo, eu sentia receio de tomar a iniciativa. Foram tantos
anos sem qualquer tipo de amizade que se tornava difícil dizer “Olá, eu sou a
Bella”.
Porém, eu sabia
que a situação era diferente. Eu sabia que não se tratava de mim. Eu sabia que
não se tratava de travar uma amizade.
Voltei a
percorrer a fogueira, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio e
encontrei Perséfone, a única deusa vestida de preto. Olhei para ela, inchando o
peito e empinando o nariz. Aproximei-me, mostrando um sorriso implacável, mas
amistoso ao mesmo tempo.
- Perséfone –
cumprimentei.
- Afrodite –
retribuiu ela na sua voz de rainha cruel.
A sua túnica
preta não transmitia qualquer fulgor ou luxo; apenas algo mortiço. Os broches
que prendiam as suas alças eram dourados e destacavam-se em toda a
indumentária. O seu cabelo, ruivo flamejante encontrava-se solto.
- Veio sozinha?
– Perguntei, metendo conversa.
Perséfone deu
uma gargalhada gutural.
- A menina
acredita que o seu tio me deixaria vir sozinha?
- Talvez ele
estivesse bem-disposto – argumentei, lembrando-me do quão obcecado era Hades
por Perséfone nas lendas.
- É raro
acontecer, tenho que confessar.
- Então onde
está ele? – Procurei saber.
Perséfone sorriu
e levantou um dedo, para apontar na direção oposta à minha. Virei o rosto e
observei um grupo de deuses a conversar amigavelmente. Um deles, também vestido
de preto, encontrava-se de costas para nós. Voltei a olhá-la de frente.
- E como estão
as coisas lá em baixo?
Ela revirou os
olhos enquanto suspirava.
- Um tédio,
minha querida. Por vezes divirto-me a julgar os mortos e a brincar com o
Cérbero, mas não é nada que me consiga levantar os ânimos. – Olhou para todos
os lados, a ver se ninguém ouvia a nossa conversa. – Se bem que uma vez ou
outra recebo visitas esporádicas. Deves entender-me, houve a nossa pequena
disputa por Adónis.
Percebi o que
Perséfone queria dizer, corando ligeiramente.
- Claro que
percebo. Provavelmente já ouviste falar também de quando Hefesto me apanhou na
cama com Ares.
- Quem apanhou
quem na cama? – Alguém perguntou.
Virei a cara,
reconhecendo de imediato os caracóis rebeldes e o sorriso maroto.
- Sejais
bem-vindo, Ha… – por momentos esqueci-me do aviso de Marie em relação a não
dizermos os nossos nomes, quase dizendo acidentalmente o dele.
Ele lamentou o
meu quase acidente.
- A minha
própria filha já nem me reconhece. Admitirias isto, Perséfone? – Perguntou à
ruiva.
- Possivelmente
não, Zeus. Mas erros acontecem.
Dito isto, fez
uma vénia e retirou-se para junto do seu marido.
Harry abriu os
braços à minha frente e deu uma voltinha, mostrando a sua majestosa túnica. A
sua máscara prateada dava-lhe um ar bastante mais velho.
- Quem te viu e
quem te vê – murmurei, dando uma gargalhada.
- Não finjas que
não adoras o que vês – provocou.
- O paizinho tem
que se controlar mais. Não se esqueça que a mamã grande não gosta disso –
insinuei.
Harry olhou para
todo o lado e aproximou-se de mim.
- Se queres que
te diga, acho que a Hera não vai aparecer. Ainda não a vi – disse com um
entusiasmo prestes a despoletar.
Ri baixinho,
abanando a cabeça em desaprovação.
- Zeus, onde
estão os seus irmãos? – Perguntei. Eu sabia que ele perceberia de quem eu
falava.
Harry sorriu
perversamente.
- Isso terá
Afrodite que descobrir.
Não fez nenhuma
vénia e afastou-se para falar com outro deus que eu não reconheci ser qual.
Suspirei pesarosamente e observei toda a gente que tanto me pareciam ou demasiado
próximos ou demasiado afastados.

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