Ele engoliu em seco, olhando-me bem no fundo dos meus olhos.
- Porque te quero beijar.
Tive medo que no momento a seguir ele fosse fazer o que desejava, mas
Louis não se moveu.
- Larga-me – pedi firmemente.
Antes que ele obedecesse ao meu pedido, vislumbrei uma pontada de dor
no seu olhar. Estava a magoá-lo.
Ares largou-me e para não tornar aquele momento mais constrangedor,
fiz uma vénia, oferecendo um sorriso. Afastei-me dele, passando por todos os
convidados em passo rápido até à mesa dos cálices. Peguei num, engolindo num só
gole todo o vinho.
Respirei fundo, recuperando o fôlego que me havia sido retirado.
Porque tinha eu recusado o beijo de Louis? Eu também queria beijá-lo,
eu também queria sentir o seu doce sabor que me preenchia até à exaustão. Seria
eu tão estúpida ao ponto de o magoar?
Porque o fizeste,
Bella?
Olhei para trás, para a fogueira que de certo modo desde o início me
transmitia quietude. Aproximei-me mais uma vez desta, estendendo a mão para as
chamas. Aí reparei que alguém estava do outro lado a observar-me. Semicerrei os
olhos de maneira a distinguir melhor o seu rosto por entre as chamas. Caminhei
até chegar ao outro lado, mas a pessoa afastava-se para o lado contrário.
Trocámos de posições, a pessoa passou a estar do lado dos cálices e eu do lado
da fonte. Fixei o seu rosto por tempo indeterminado sem saber muito bem o que
haveria de fazer, mas ele sorriu de relance. Tentei mais uma vez aproximar-me
dele; desta vez, não se afastou, acompanhando o meu passo e o meu olhar que o
prendiam.
Quando cheguei perto dele, reparei que a sua máscara era quase da
mesma cor que a minha. Ele deixou-me observá-lo à vontade. A sua túnica era a
túnica masculina mais linda que eu alguma vez vira. Depois olhei para os
broches nas alças, mas não consegui distinguir o desenho que cada um tinha. A
túnica, distendia-se numa manga fluída pelo braço direito, mas não de maneira a
dar-lhe um ar feminino, mas sim angelical. Virei o meu olhar na direção do seu
cabelo, encontrando-o todo preto e bem penteado para trás. No entanto, alguns
cabelos indomáveis pendiam sobre a sua testa. Fixei os seus olhos castanhos que
já estavam fixos em mim, o que me deixou a corar. Sem olhar diretamente, notei
a formação de um sorriso nos seus lábios.
E o meu coração, por momentos, parou a ouvir a sua voz.
- Bela Afrodite – murmurou numa voz vinda do fundo da sua garganta.
- Zayn – murmurei involuntariamente.
- Schhh – disse ele, colocando um dedo à frente dos lábios. – Sou
Adónis, minha deusa.
Corei mais uma vez assim que ele disse “minha deusa”.
- Onde estavas este tempo todo? – Perguntei.
- À espera – respondeu, fazendo uma pausa. – À espera do melhor
momento de te impressionar. E pelos vistos consegui.
Sorriu enviesadamente e eu revirei os olhos.
Depois lembrei-me da dança com Louis. Será que Zayn viu? Oh meu deus,
o que iria acontecer depois disto?
- Viste? – Perguntei, sabendo que ele perceberia do que eu havia
perguntado.
Zayn suspirou.
- Era difícil não ver, e muito menos ouvir, já que toda a gente não
se calava com a vossa dança. “Afrodite está tão esbelta e Ares não lhe fica
nada atrás”, “Ambos ficam tão bem”. – Quando Zayn repetiu algumas coisas que os
outros comentavam, o seu rosto ficou em agonia.
E ele não fez qualquer esforço de o esconder.
Aproximei-me dele, querendo tocar-lhe, abraçá-lo, fazer qualquer
coisa para o reconfortar. Mas Zayn afastou-se ligeiramente.
- Sabes bem que não te podes afastar para sempre. – Murmurei com
raiva. – Vais continuar a esconder os teus sentimentos de mim?
Ele virou a cabeça para baixo, unindo as sobrancelhas. Não percebi o
que estava ele a aguentar.
- Ainda não percebeste o que está a acontecer… Afrodite? – Perguntou
levantando subitamente o rosto. – Ainda não percebes que te encontras num
triângulo amoroso entre mim e Ares?
Escalfei o lábio por dentro, nervosa. Os momentos que eu tanto temia
por acontecerem ainda estavam por vir. Mais cedo do que eu julgava.

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