- Porque é que
eles têm que matar uma pessoa para verem o menino bem? – Perguntou Sam com uma
expressão triste.
- Sim, porquê?
– Investiu Zayn.
- Não sou eu
que faço as histórias, Booboo. Não te esqueças, eu sou apenas o narrador. –
Pisquei o olho.
Zayn olhava
para mim, o que mais uma vez me deixou desconfortável. Porque os seus olhos,
grandes e maravilhosamente hipnotizantes, criavam um friozinho no meu estômago
que eu não era capaz de controlar.
- Os reis
testaram cada pessoa no seu reino, mas ninguém tinha coração puro, até porque
ninguém queria arriscar a sua vida para salvar outra pessoa, mesmo que fosse o
príncipe cego. Até que um dia, Ariel apareceu.
Sam sorriu, e
eu também.
- Os pais do
príncipe perguntaram-lhe o que estava ela ali a fazer. Ariel respondeu “venho
entregar o meu coração aos deuses, para que o príncipe Veja”. A Rainha não
acreditou que ela fosse de coração puro; então propuseram-lhe uma série de
testes parecidos aos que o povo teve que fazer. Ariel passou em todos.
- E o príncipe?
Ele sabia o que Ariel estava prestes a fazer? – Perguntou Sam.
- Não, meu
pequenino Booboo. – fiz-lhe cócegas durante um segundo. – O príncipe não sabia
de nada, porque os pais também se esqueceram de lhe dizer. Estavam tão
preocupados em fazer Sam voltar a ver que não se lembraram que Ariel era a
única amiga dele.
Sam caminhou
para o meu colo, trazendo Zayn a aproximar-se de mim. Eu não disse nada, rezando
para que ele se aproximasse mais. Deus assim ouviu as minhas preces, e Zayn
estava quase tão perto de mim quanto Sam. Podia sentir-lhe o calor que emanava
do seu corpo. Mas era provável que fosse apenas o calor do lume. Tentei
concentrar-me na história.
- O ritual que
iam fazer, requeria conhecimentos do forasteiro que os aconselhara. Mandaram
chamá-lo e perguntaram “Forasteiro, o que é preciso fazer agora?”. A cada
palavra emitida pelo homem, os reis iam assentindo, atentos a todo o processo
que teriam de fazer.
Sam já fechava
os olhos.
- Ariel estava
pronta. – Proclamei em voz baixa. Olhei para Zayn. – Ela ia-se sacrificar para
que o pequeno príncipe tivesse a sua visão. Mas não o fazia de má vontade, ou
arrependida. – À medida que contava a última parte da história, não fui capaz
de cortar o olhar entre mim e Zayn. Atrevo-me a dizer que nem eu nem ele
queríamos fazê-lo. – Ela queria fazê-lo. Ela queria salvá-lo da tristeza em que
ele vivia.
Zayn
aproximou-se mais. E o meu coração quase que saltava de ansiedade.
- No momento em
que o coração de Ariel fora sacrificado aos deuses – a minha voz sussurrada era
límpida – a maldição fora quebrada. E o menino voltou a ver.
Zayn sorriu.
- O príncipe
correu e saltou por todo o castelo, vendo e absorvendo cada imagem por onde os
seus olhos pousavam. Ele estava felicíssimo. Lembrou-se de Ariel. Pediu a toda
a gente que lhe dissessem onde ela estava, mas ninguém dizia. Foi ter com os
pais. “Mãe, Pai, a Ariel?”, a pergunta pairava no ar. O Rei, com pena do filho,
respondeu “Artur, a Ariel fez uma coisa por ti que nunca ninguém mais irá
fazer”.
Sam já
adormecera, então deixei a história a meio.
- E o pequeno
príncipe? – Perguntou Zayn.
- O Sam
adormeceu, amanhã acabo de contar a história.
Zayn
aproximou-se.
- Conta-me – sussurrou, inclinando a cabeça na
minha direção.
Será que eu
sabia o que ia acontecer? Ia mesmo ele beijar-me? A velha expressão bem o
dizia, sentia borboletas no meu estômago.
Ele olhou para
os meus lábios e eu só rezava para que ele me beijasse logo, de uma vez. Porque
eu não me conseguia mexer. Engoli em seco.
- Menino, já
faz tarde.

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