Andavam de um
lado para o outro, pessoas que carregavam tabuleiros com comida pré-feita em
recipientes de fácil abertura. Desviei-me de um senhor que com passo rápido
entrou numa outra divisão. Harry guiou-me até ao que de início logo percebi ser
uma cozinha.
- Pessoal, esta
é a Bella! – Apresentou-me Harry.
Ninguém ligou.
- Harry! –
Disseram todos em uníssono.
- Já não
aparecias há algum tempo! – Gritou outra pessoa que não soube ver quem era.
- Já pensava
que nos tinhas abandonado! – Disse uma voz masculina.
Harry riu, como
se soubesse de quem se tratava a voz.
- Nunca seria
capaz de vos abandonar, John – admitiu.
Levou-me depois
até a uma grande sala com dezenas de pessoas e diversas mesas com pratos,
talheres e copos postos. Junto à parede estava uma mesa comprida com dois
enormes tachos em cima. Inalavam vapor, pelo que deduzi ser sopa.
Já entendera o
que se passava ali. Aquilo era a Sopa dos Pobres.
- Oh Harry –
murmurei. – Há quanto tempo fazes isto?
Ele sorriu.
- Desde que
conheci a senhora Leticia, há dois anos. Estava a começar a minha carreira no X-Factor e ela reconheceu-me da
televisão. Convidou-me a participar disto durante uma das refeições que eles
têm todos os dias, e no dia seguinte dei comigo a vir aqui de novo.
Colocámo-nos
atrás da mesa comprida, preparando-nos para servir as pessoas que esperavam. Já
formavam a fila.
- Criei aqui
laços de amizades que nunca iria conseguir criar lá fora. Aqui não me tratam como uma celebridade. – Fez uma pausa,
abrindo a tampa do tacho e deixando todo o vapor sair. – Para eles, sou somente
o Harry.
Abri a tampa do
tacho ao meu lado, revelando ser sopa, como eu já deduzira anteriormente. Um
mendigo pôs-se à minha frente, expectante e com um sorriso. Aquilo
enterneceu-me.
- Olá –
cumprimentei.
- Olá menina –
disse-me ele. – Pode encher o prato de sopa?
A minha vontade
era chorar.
- Não pensaria
noutra coisa senão fazer o que me pede.
Peguei numa das
taças de sopa – eram pequenas, o que me entristeceu por não ser o suficiente
para eles – e enchi-a de sopa até à borda. Os olhos do senhor brilharam.
- Tenha cuidado
para que não entorna – aconselhei.
Olhei para o
lado, para ver Harry a encher o prato principal de puré, ervilhas e um bocado
de carne.
A seguir veio
outro senhor. Ofereceu-me um sorriso e eu retribuí com uma taça de sopa cheia.
Todas as pessoas, ou todos os mendigos, me presenteavam o que de melhor tinham;
o seu sorriso. E esperavam em troca uma taça de sopa. Algumas fizeram-me rir
com as suas piadas, ou as tentativas de se meterem comigo.
- Já reparaste
que foste assediada por mais de metade dos senhores que aqui estão? – Perguntou
Harry a rir, enquanto enchia o prato para uma senhora. Esta também se ria.
- Pudera. A tua
amiga é bastante bonita, Harry. – Respondeu a senhora.
Estalei a
língua, sorrindo envergonhada.
- Não sou nada
de especial. – Retorqui.
Enquanto
esperávamos por mais gente necessitada, fui observando os que comiam. Não
conseguia imaginar o que era viver na rua, num sítio que não era o nosso. Ao
frio, e sem nenhum cobertor a proteger-nos. E acordar todos os dias a pensar no
passo seguinte para arranjar comida e sobreviver. Era algo que me incomodava
muito e me entristecia a alma.
- Harry –
chamei-o. – Onde dormem estas pessoas?
Ele olhou-me
com tristeza.
- Nós não
sabemos. Às vezes encontramos um deles a dormir ao pé do Big Ben ou num banco
do jardim.
Mais pessoas chegaram,
ansiosas por uma refeição quente. O primeiro a quem servi a segunda ronda, fora
um senhor que muito educadamente retirou a boina da cabeça, cumprimentando-me
com um aceno. Retribuí com um sorriso, dando a taça de sopa.
- Já planeavas
vir para aqui? – Perguntei a Harry.
- Como assim?
- Isto é, se eu
não te tivesse ligado há duas horas atrás.
Harry deu um
prato a um senhor velho que detinha algumas dificuldades em andar. Depois
disse-lhe “Coma tudo, vai-lhe fazer bem”. Virou-se para mim.
- Venho para
aqui quase todos os sábados a esta hora.
Olhei para o
chão, acenando com a cabeça.
- Os rapazes
sabem disto? – Perguntei.
Ele riu
baixinho.
- Não.

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