As pessoas
sempre me consideraram bonita, tanto de cara como de corpo. Em criança ouvia
muitas vezes as colegas de trabalho da minha mãe dizerem que eu devia seguir Moda.
No entanto, mantinha em segredo o meu ódio por mim mesma. Claro que tinha a
noção de que era – e sou – bonita; mas quando te habituas a ouvir comentários
negativos vindos de um membro da tua família, o caso muda de figura.
O meu pai não
me odiava, mas exigia muito de mim. Ele era um cristão devoto, levava muito a
sério a religião. Talvez fosse daí que vinha o meu respeito pelas refeições.
Lembro-me de uma vez, em criança, levar com uma reguada na mão, porque me
recusara a comer as ervilhas que deixara no prato. Outro momento que ficara bem
assente na minha memória, fora quando o meu pai me queimara os dedos da mão
esquerda, com cera quente, por ter roubado
um rebuçado na loja da senhora Ermelinda. Eu tinha oito anos, na altura.
A partir daí,
ele deveria ter achado uma boa punição queimar a respetiva parte do corpo com
que eu cometera o crime.
- É o nosso
pequeno segredo – disse-me ele na cave, depois de me queimar os dedos.
Lembro-me de chorar, mas jurar que não contaria à mãe sobre aquilo.
Ao fim de sete
anos, a pele, na maior parte do meu corpo, já não era macia, mas sim rugosa e
avermelhada. Embora nas partes que usualmente são mais expostas já não tenha
tantas evidências como dantes, ainda hoje continuo sem me despir à frente de
quase absolutamente ninguém por vergonha à feiura que são as minhas marcas. Curioso
que, a última vez que ele me punira,
foi provavelmente a mais dolorosa de todas elas. O meu crime? Entreguei-me a
Nuno.
- Mana? – Ouvi
Sam chamar-me. E depois apercebi-me do que me rodeava e recordei-me do que
estava a fazer e para o quê.
Discoteca.
Zayn. One Direction. Aperaltar-me toda para a grande noite.
Respirei fundo
após repetir três vezes cada palavra. Levantei o olhar para verificar se estava
pronta com a maquilhagem. É normal uma rapariga querer embelezar o que já tem
de belo, e no entanto, ainda não existem explicações científicas para isso.
- Booboo, achas
que estou pronta? – Perguntei.
Sam sorriu-me,
batendo palmas. Dei uma voltinha, sorrindo-lhe também.
- O Nouis vai
gostar – disse ele, envergonhado.
Revirei os
olhos.
- Não quero
saber se o Louis vai gostar. Não é para impressioná-lo.
Sam continuou a
olhar para mim, mas tornei a olhar-me ao espelho, verificando se realmente
estava pronta.
- É para o
Zayn? – Sussurrou Sam.
Parei de moldar
o cabelo, assim que o ouvi. Assustava-me um pouco a capacidade do meu irmão de
perceber as coisas e as pessoas.
- Não tenho
nada a dizer, pirralho.
O meu irmão
continuou a olhar para mim e eu exasperei o ar, pegando-o ao colo. Passei pelo
meu quarto só para pegar na mala – era preta e com uma corrente comprida a
imitar uma alça – e colocar o tabaco dentro desta. No dia anterior tinha
comprado o primeiro maço em Londres, Marlboro. Sam fez uma careta ao vê-lo.
- Que achas? – Perguntei
a Laura, quando cheguei à sala e larguei o meu irmão no chão.
Ela uivou.
Depois esboçou um pequeno sorriso.
- Como sempre,
estás bonita. É para impressionar quem?
Senti a
impaciência subir-me à cabeça.
- Também tu?!
Não é para impressionar ninguém – menti.
Apesar de a
minha pequena família ter percebido que eu queria impressionar certa pessoa, eu
não era capaz de admitir que realmente o queria. Não fazia parte de mim mostrar
que um dos meus objetivos para certas noites era impressionar alguém. No meu
íntimo, eu sabia que quando uma rapariga se vestia para arrasar, era óbvio que
era para impressionar; no entanto, eu não fazia questão de o mostrar. Adotava
sempre a dissimulação de que não me importava se chamava a atenção de alguém.
Quando na verdade, era o que eu mais queria.

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