O campo encontrava-se em silêncio absoluto, nem mesmo as nossas
respirações se ouviam. A certa altura pensei de novo no que acontecera no meu
quarto.
Seria assim tão difícil meter na minha cabeça que não estava correto
envolver-me com Zayn? Ainda por cima daquela maneira! O corpo dele junto ao
meu, a sua boca entrelaçada na minha…
Bem reza o provérbio ‘O fruto
proibido é o mais apetecido’. Zayn pertencia a outra pessoa, e com certeza
que o seu coração estava nas mãos dela. Não competia a mim mudar isso. Eu não
era ninguém para o fazer. Até porque Zayn – e eu punha as mãos no fogo por isso
– não devia sentir nada por mim. Mesmo com tudo o que tenha acontecido entre
nós é absolutamente impossível ele
sentir algo por mim.
- Alguma vez te ocorreu quereres mudar algo no passado?
A voz dele pareceu ser como um choque que me legaram para acordar. A
pergunta que fizera deixou-se repetir na minha memória.
- Todos os dias – sussurrei, virando a cara para ele. Zayn também me
olhou, contudo, entendi que ele compreendia as minhas palavras.
- O que aconteceu?
Falar sobre o passado, era sempre algo difícil para mim. E angustiava-me
só de pensar na matéria, porque podia tudo ter sido diferente. Se eu não
tivesse pegado no rebuçado lá na loja da senhora Ermelinda, se eu não tivesse
recusado comer o que estava no meu prato naquela noite quente de verão, se eu
não tivesse sentado ao lado de Nuno no autocarro naquela sexta-feira, as coisas
seriam bastante diferentes.
- Aconteceu imensa coisa que, eventualmente, nunca deveriam ter
acontecido.
A minha voz, transformada num sussurro, notava-se bem que transmitia
dor.
- Não tenhas medo de contar.
Fechei os olhos, sorrindo.
- Quem disse que eu tenho medo de contar o quer que seja? –
Perguntei, o mais docemente possível.
Deixei o silêncio instalar-se, como que dando mais tempo para
arranjar coragem de falar. Eu tinha vergonha de sequer pensar em falar no que
acontecera, fosse o que fosse; ainda só havia uma única pessoa que sabia das
minhas queimaduras. Nuno. Eu não era capaz de falar do que o meu pai fazia. Nem
mesmo à minha mãe.
Todavia Zayn não era uma pessoa qualquer. E de certa maneira um dia
isto haveria de acontecer.
- Eu tinha oito anos quando pela primeira e última vez roubei algo. –
A minha voz estava rouca. Ele esperou. – Foi um rebuçado, numa loja perto da
casa onde eu e os meus pais vivíamos.
Ouvi o som do seu corpo a arrastar-se mais junto a mim.
- O que aconteceu a seguir? – Perguntou.
Engoli em seco. Solucei duas vezes e ele aproximou-se mais. A sua mão
procurou a minha, entrelaçou os dedos nos meus e apertou forte a minha mão.
Conta, Bella.
A reprodução da minha voz na minha mente foi o impulso que eu
precisava.
- Eu e o meu pai saímos da loja e fomos a pé até casa. A meio do
caminho, retirei o plástico que envolvia o rebuçado e pu-lo na boca. O meu pai
viu, parou e obrigou-me a cuspir a goma. Depois olhou para mim e disse “Sabes o
que é que acontece a quem tira do lugar o que não lhe pertence?”.
O meu peito doía de agonia e o meu coração ficou pesado com a
recordação. Zayn apertou de novo a minha mão.
- Eu acenei que não, ficando com medo que ele me pudesse fazer algum
mal. Mas não me respondeu. Pegou na minha mão (a esquerda) e puxou-me até casa.
Quando chegámos, a minha mãe ainda não tinha vindo do trabalho. O meu pai
levou-me até à cave.
Enquanto contava a Zayn o que tinha acontecido, as memórias encheram
a minha mente. Talvez se só tivesse acontecido uma vez, aquilo não me
incomodaria tanto assim.
- Nós sempre fomos uma família muito religiosa. A diferença que havia
entre nós e as outras famílias católicas, era talvez o facto de que o meu pai
me castigava de uma maneira bastante… diferente.
- Porque é que ele te castigava?
Os meus olhos continuavam a mirar o céu, até que uma lágrima rolou
pelo meu rosto, e uma estrela cadente rasgou o manto negro.
- Oh, pede um desejo! – Murmurei para Zayn.
Olhei para ele. Fixou o meu olhar, muito seriamente. Ofereci um
sorriso meio forçado, meio tímido.
- Coisas simples, como por exemplo quando os meus pais me chamavam e
eu não ia ter com eles… ou como por exemplo, uma vez, quando eu parti um jarro
de flores. Coisas que acontecem a qualquer um, mas que o meu pai não admitia
que eu fizesse.
Zayn respirou fundo e apertou mais uma vez a minha mão.
- Como é que ele te castigava?
Instantaneamente dei uma gargalhada.
- Agora sim, Zayn, fizeste a pergunta certa.
O sorriso que se formou no meu rosto, por causa da gargalhada,
desapareceu num ápice, quando me lembrei dele a queimar-me os dedos da mão.
Quase que ainda conseguia sentir os dedos mergulharem na cera a ferver.
Fixei o olhar de Zayn, e ele viu mais uma lágrima cair. Aproximou-se
e deu-me um beijo suave na testa. A minha voz tornou-se num sussurro.
- O meu pai aqueceu a cera, colocando-a dentro da panela. Lembro-me
de começar a chorar, porque já conseguia imaginar o que ele ia fazer. Então ele
disse uma coisa que eu nunca consegui esquecer, “As meninas que roubam
rebuçados não recebem sobremesa ao jantar”. Depois agarrou na minha mão
esquerda e mergulhou os meus dedos na cera.
O silêncio acomodou-se entre nós, e por momentos receei que Zayn
tivesse adormecido. Mas ele levantou-se, puxando-me.
Olhou para mim durante um longo período de tempo; a seguir levantou a
mão, ajeitando os cabelos bravios que se tinham soltado de dentro do meu capuz.
Olhou para baixo, indo buscar a minha mão esquerda. Colocou-a à minha frente,
acariciando a palma e os dedos, um por um.
Fechou os olhos e como se fosse um cavalheiro dos tempos antigos,
ajoelhou-se e beijou a minha mão.

Eu amo a tua fic!!!! :) nunca pares!!! <3 <3 <3 <3
ResponderEliminaraaaww :33 algum dia terei que parar esta fic né :b mas não vou parar de escrever nunca, obrigada sweetie <3
EliminarDenada! Desde que continues a escrever no blogge fico feliz!! :)
Eliminar